O empresário britânico Edward Short, de 57 anos, finalmente vendeu a Chesil Cliff House, mansão inspirada em um farol construída sobre as falésias de North Devon, no sudoeste da Inglaterra. O projeto, que começou como um sonho de infância, terminou em uma saga de 15 anos marcada por dívidas milionárias, desgaste familiar e frustrações. A propriedade de seis quartos (que ficou conhecida como a "casa mais triste do mundo"), localizada entre as praias de Saunton Sands e Croyde Beach e com acesso a uma enseada privativa, foi vendida por £ 4,35 milhões (cerca de R$ 31,9 milhões) após dois anos no mercado.
Este preço, porém, representa menos da metade do valor inicialmente pedido. Além disso, Short não receberá nada com a negociação, já que a casa e uma construção menor no mesmo terreno, chamada The Eye, estavam sob controle de administradores judiciais. A venda também não foi suficiente para cobrir os mais de £ 10 milhões (cerca de R$ 73,3 milhões) de dívidas acumuladas ao longo da obra. Em entrevista ao jornal britânico The Sun, Short disse sentir alívio com o fim da longa batalha:
Publicidade
— Já sabia há muito tempo que nunca moraria na casa dos meus sonhos. Tive tempo para me acostumar com isso. Houve muitos altos e baixos, mas agora estou mentalmente em paz — afirmou.
Sonho desfeito
O ex-produtor musical, que fez fortuna com a marca de CDs Euphoria, comprou em 2008 uma antiga casa de sete quartos no local por £ 1,4 milhão. Ele decidiu demolir o imóvel e erguer ali uma mansão de linhas modernas inspirada em Ibiza, financiada por meio de empréstimos bancários.
As dificuldades, no entanto, surgiram logo no início. Quando o projeto foi mostrado pela primeira vez no programa Grand Designs, em 2016, o apresentador Kevin McCloud destacou a recusa de Short em abrir mão de detalhes caros. A teimosia, somada a imprevistos e atrasos, fez a dívida com o empréstimo saltar para £ 4 milhões em poucos anos.
Em 2018, com as obras paradas, a mansão se resumia a uma estrutura de concreto inacabada, classificada por vizinhos como uma “monstruosidade”. A pressão financeira e a frustração pessoal acabaram abalando o casamento de duas décadas de Short com Hazel, com quem teve duas filhas.
— Foi horrível para a família, porque tirei a estabilidade de todos sem ter como dar respostas. Não havia saída, só continuar. Se não levássemos até o fim, estaríamos em apuros ainda maiores — disse.
Projeto faraônico
Apesar de nunca ter morado na Chesil Cliff House, Short guarda lembranças do tempo em que viveu com as filhas na casa vizinha, The Eye, construída para tentar recuperar parte do investimento. Ele destacou momentos marcantes, como mergulhos no mar e tempestades vistas da chamada storm room, espaço com janelas em 270 graus.
A mansão principal contava com um térreo amplo, spa, sala de cinema, cozinha envidraçada com vista para uma piscina de borda infinita e suítes com varandas voltadas para o mar. O destaque era a torre circular de quatro andares, de onde se podia acompanhar o impacto das tempestades contra a falésia.
Mesmo assim, a propriedade acumulava problemas. Short precisou de mais £ 2 milhões para consertar a estrada de acesso, que começou a ruir. O preço de venda, inicialmente fixado em £ 10 milhões, despencou para £ 5,25 milhões no início de 2024, até ser finalmente fechado em £ 4,35 milhões no fim do ano.
— A venda não cobre a dívida, mas as casas serviam de garantia. Então é o fim da história — resumiu.
Traumas pessoais e nova carreira
Além das perdas financeiras e familiares, Short também enfrentou dores pessoais. Após o divórcio, engatou um relacionamento com a enfermeira Jalia Nambasa, mas a relação terminou em junho de 2024, outro reflexo da turbulência de sua vida.
Ele também revelou ao The Sun que parte de sua decisão de mudar de carreira foi influenciada por traumas da adolescência, quando sofreu abusos sexuais em série cometidos por professores em sua escola. Um deles, o professor de História Richard Small, chegou a ser condenado em 2005. Short recebeu uma indenização de £ 75 mil, usada para pagar parte dos custos iniciais da obra em Devon.
Atualmente, ele vive em Bath e trabalha há mais de dois anos como agente penitenciário em uma prisão de segurança média. Segundo afirma, o trabalho lhe traz perspectiva diante de sua própria trajetória:
— Ali você lida com pessoas em crise, muitas vezes suicidas. Precisa ser mentor, guia e pai. Colocar minha experiência de vida a serviço deles me ajuda também a não me perder nos meus próprios problemas — contou. Entre os detentos, sua notoriedade pelo fracasso milionário também virou assunto: — Eles acham engraçado eu ter perdido tanto dinheiro e acabado trabalhando ali.
Desfecho amargo
Apesar de estar longe de falir pessoalmente, Short admite que a saga deixou sequelas, sobretudo para a ex-mulher.
— Não houve nada a ser dividido no divórcio, e Hazel ficou sem qualquer segurança. Ela nunca me cobrou, mas sei que a deixei desamparada. Se pudesse reparar isso, dormiria mais tranquilo — afirmou.
Ainda assim, ele diz manter certo carinho pelo projeto e sonha em ver o resultado final da mansão:
— Gostaria de voltar quando a casa estiver finalizada. Seria bom vê-la no auge. Sei que meu “grande design” se foi, mas ainda posso comprar um bilhete de loteria e sonhar.
Fonte/Créditos: O Globo
Créditos (Imagem de capa): 'Casa mais triste do mundo' é finalmente vendida, por menos da metade do preço inicial — Foto: Reprodução