O Lago Paranoá costuma ser um espaço de lazer para muitos brasilienses. Do Lago Sul ao Lago Norte, as margens do espelho d’água contam com diversas residências, clubes, decks e espaços de lazer espalhados, além de cartões postais da capital, como a Ponte JK e o Pontão. De tão democrático, o espaço conta também com a presença de velhas conhecidas da cidade: as capivaras.
Os roedores ocupam, em média, 25% de toda a orla, onde encontram abrigo e alimentação. O resultado faz parte do estudo “Identificação e monitoramento das populações de capivaras na orla do Lago Paranoá“, que foi feito em uma parceria entre a Secretaria de Meio Ambiente e Proteção Animal (Sema-DF) e a Universidade Católica de Brasília (UCB).
Apesar de serem animais dóceis e acostumadas à presença de humanos, especialistas alertam que as pessoas devem manter distanciamento para evitar ataques, possíveis doenças e até acidentes. Nos últimos anos, atropelamentos de capivaras têm se tornado relativamente comuns na capital do país.
Veja a ocupação das capivaras na orla:
Segundo a Sema-DF, não há superpopulação de capivaras no Distrito Federal. Ao Metrópoles a pasta explicou que se observa uma maior visibilidade dos animais, sobretudo nas áreas próximas ao Lago Paranoá, devido ao aumento do uso de áreas de preservação permanente (APP) e à retirada de cercas que antes limitavam a circulação da fauna.
Relembre algumas visitas “ilustres” das capivaras na capital
- Comerciantes de um shopping no Lago Sul (DF) se depararam com um passeio em família de 11 capivaras e até atravessando a faixa de pedestres;
- Ainda na região próxima à orla do Lago Paranoá, um bando foi registrado atravessando a Ponte das Garças. Segundo relato, os animais, inclusive, esperaram os carros pararem para seguir caminho;
- Em um outro caso inusitado, um grupo de capivaras chegou a “invadir” o Complexo Penitenciário da Papuda e foi mobilizada uma força-tarefa do Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) para o resgate delas.
Em razão dessa crescente visibilidade das capivaras não somente no Lago Paranoá, mas em todo o DF, um novo estudo de monitoramento foi solicitado pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), em parceria com a Sema-DF, a Universidade Católica de Brasília e a Secretaria de Saúde (SES-DF).
O projeto firmado em 2025 buscará entender melhor a presença das capivaras nas áreas urbanas do DF e os conflitos decorrentes da convivência com os seres humanos no período de três anos.
“Queremos saber se as populações de capivaras estão crescendo ou diminuindo; se migram entre diferentes áreas e se representam risco de transmissão de doenças, como a febre maculosa. Essa resposta é fundamental para orientar ações de prevenção, saúde pública e cuidado com a fauna”, explica a coordenadora da pesquisa, Morgana Bruno.
De acordo com o Ibram, a iniciativa também irá permitir se será decidido uma melhor estratégia de manejo ou não das capivaras do Lago Paranoá.
“O projeto é fundamental para orientar decisões técnicas e garantir o manejo adequado da fauna, sempre com responsabilidade ambiental e foco na saúde pública”, destacou o presidente do Ibram, Rôney Nemer.

Mais detalhes do projeto
- As capivaras serão acompanhadas de perto até 2027 por pesquisadores e estudantes do grupo Capivaras DF;
- O grupo tem acompanhado os roedores em áreas como a orla do Lago Paranoá, o Parque Ecológico de Águas Claras e o Zoológico de Brasília;
- O monitoramento mensal das capivaras inclui atividades como a contagem de indivíduos e o registro do perfil populacional para avaliar a dinâmica desses grupos ao longo do tempo;
- A equipe também tem estudado as capivaras moradoras do Distrito Federal, em busca de conhecimentos sobre o comportamento da espécie e os impactos na saúde pública e na conservação da fauna.
Para o biólogo Mateus de Sousa, o fato de as pessoas no DF estarem vendo as capivaras com mais constância não necessariamente significa que a população esteja crescendo. O motivo da visibilidade maior estaria atrelado à invasão das pessoas aos habitats das capivaras.
“O que pode estar acontecendo é que nós estamos avançando nas áreas naturais com construções e loteamentos. Nós estamos ’empurrando’ os animais que não conseguem sobreviver em áreas modificadas pelo homem para fragmentos florestais“, explicou.
Ele ainda destaca que o fato de os predadores naturais das capivaras não viverem no nosso meio urbano acaba transformando os humanos em uma espécie de barreira aos animais.
“Isso acaba sendo bom para as capivaras, que não serão predadas, mas pode impactar na estrutura populacional desses animais”, acrescentou.
Comportamento das capivaras
A aparência fofa e tranquila das capivaras são alguns dos motivos que fazem a população da capital se apaixonar pelo animal silvestre. No entanto, a imagem dócil das capivaras precisa ser interpretada com cautela.
Os roedores, por exemplo, vivem em grupos e tendem a evitar confrontos, optando pela fuga ao menor sinal de ameaça. Ainda assim, situações como aproximação excessiva, presença de outros animais ou tentativas de contato físico podem desencadear reações inesperadas.
“Se elas [capivaras] estão se reproduzindo, ou se estão doentes, se sentindo acuadas, ou estão querendo defender o território, podem se tornar agressivas. Os [dentes] incisivos delas são extremamente grandes e afiados, o que resulta em uma força de mordida muita forte”, contou Eduardo Bessa, especialista em comportamento animal.
Em fevereiro, uma mulher chegou a ser mordida por uma capivara após o animal reagir de forma defensiva para proteger um de seus filhotes. Na ocasião, um cachorro, sem guia e coleira, andava próximo ao bando, quando a mulher, ao se aproximar do grupo, acabou sendo atacada e ferida.
Segundo a Sema-DF, sempre há chances de acidentes com fauna silvestre, como mordeduras ou arranhaduras, principalmente quando há presença de filhotes.
Para Eduardo, quando ocorre uma situação em que há presença de um bando das capivaras em um local, o correto a se fazer é “não chegar perto”.
“A gente sempre fala: ‘não persegue, não acua, não toca, não dá carinho’. Fica de longe, aprecia, admira, porque realmente é um bicho muito carismático e fofinho. Mas a própria lei de proteção à fauna considera isso [de forçar a aproximação] um crime ambiental”, explicou.
Relembre outros casos
- Em 2021, um morador de um condomínio luxuoso no Setor de Hotéis de Turismo Norte (SHTN) foi atacado por uma capivara. A mordida resultou em um ferimento na perna e o encaminhamento a um hospital;
- No mesmo ano, um outro homem chegou a ser atacado enquanto mergulhava no Lago Paranoá. As marcas de garra do animal ficaram marcadas nas costas do homem.
Convívio com o bando
A precaução instruída pelo especialista é uma medida que a diretora de fotografia Sthéfany Garcia adota ao ver os animais. Ela conta que, apesar de gostar das capivaras, evita ficar perto delas em razão de ter medo de como o bando possa reagir.
“É um animal silvestre que está vivendo ali no seu habitat e protegendo os seus filhotes. A gente tem de observar de longe, como qualquer outro animal não doméstico”, ressaltou.
Sthéfany, inclusive, relembrou que dois cães de uma familiar já chegaram a ser atacados por capivaras, em 2024, quando estavam soltos em um passeio na Ermida Dom Bosco.
Na ocasião, os cachorros Trovão e Panda, da raça american staffordshire terrier, se aproximaram dos animais silvestres pela água e foram atacados. Panda sofreu um ferimento leve no pescoço. Mas Trovão teve as costas dilaceradas, com um ferimento de 15 centímetro de profundidade, e passou por um longo processo de recuperação, ficando internado por aproximadamente 10 dias.
O episódio, inclusive, gera opiniões controversas até hoje a respeito da presença das capivaras no local onde ela mora, na QL 32 do Lago Sul, que fica ao lado da Ermida Dom Bosco.
“É uma relação [entre os moradores] bem 50/50. Tem a galera que é de boa com a presença delas. Mas tem um pessoal que manda mensagem no grupo revoltado, porque tem gente lá que tem cachorro e as capivaras chegam perto das casas e eles ficam com receio de elas passarem doença”, disse.
A quadra residencial costumava receber a visita dos roedores com frequência, até que, em julho do ano passado, um motorista fugiu após atropelar e matar 12 capivaras que passavam por uma via no local. Depois do atropelamento do bando, as visitas diminuíram muito, segundo Sthéfany.
“Nós víamos elas umas três vezes na semana. Sempre foi muito comum. A gente sempre via muitas capivaras, que até interagiam com os gatos [de rua] ali da região. Desde o atropelamento, não vejo mais. A gente fica até se questionando se elas estão com algum instinto de não quererem frequentar mais um lugar onde um bando foi atropelado”, acrescentou.
Em dezembro de 2025, inclusive, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) emitiu uma recomendação para reduzir acidentes com capivaras no Lago Paranoá. Na ocasião, a 4ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural (Prodema) expediu a Recomendação nº 07/2025 com foco na proteção de capivaras e na segurança de frequentadores e motoristas.
Em uma das medidas recomendadas pelo MPDFT foi pedido a elaboração de um plano de educação ambiental, com foco na convivência segura entre população e fauna silvestre urbana e a implantação de corredores de fauna, cercas-guia e barramento contínuo, ou outras soluções equivalentes. Tudo para reduzir atropelamentos e acidentes.
Fonte/Créditos: Metrópoles
Créditos (Imagem de capa): BRENO ESAKI/METRÓPOLES

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