Um relatório divulgado por um comitê da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos dedicado ao monitoramento da atuação da China afirma que projetos espaciais desenvolvidos em território brasileiro podem contribuir para capacidades de vigilância e inteligência militar de Pequim. As informações são do jornalista Paulo Cappelli.
O documento, elaborado pelo Comitê Especial da Câmara dos Representantes sobre o Partido Comunista Chinês, cita duas iniciativas instaladas no Brasil: uma estação terrestre em Tucano, na Bahia, fruto de parceria entre a empresa brasileira Ayla Nanosatellites e a chinesa Beijing Tianlian Space Technology, e um laboratório sino-brasileiro de radioastronomia localizado na Serra do Urubu, na Paraíba.
Segundo o relatório, essas estruturas ilustrariam como instalações apresentadas para fins civis podem possuir aplicações de uso dual, ou seja, com potencial para utilização tanto em atividades civis quanto militares.
Estação na Bahia é alvo de questionamentos
No caso da estação terrestre de Tucano, criada a partir de um acordo firmado em 2020, os parlamentares americanos afirmam que o compartilhamento de dados operacionais entre as redes de antenas das empresas envolvidas poderia ampliar capacidades de rastreamento espacial, monitoramento de satélites e resiliência de sistemas de comando.
O documento também menciona um memorando de entendimento entre a Ayla Nanosatellites e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira (FAB). Segundo o relatório, o acordo prevê treinamentos voltados à simulação orbital e o uso de antenas da FAB como infraestrutura de apoio.
Para o comitê, essa cooperação poderia permitir à China acompanhar aspectos da doutrina espacial militar brasileira e ampliar sua presença estratégica na região.
Laboratório de radioastronomia também é citado
Outro projeto mencionado é o laboratório conjunto de radioastronomia criado em 2025 por instituições brasileiras em parceria com o China Electric Science and Technology Network Communication Research Institute (CESTNCRI).
Embora reconheça o caráter científico da iniciativa, o relatório argumenta que as tecnologias empregadas podem ter aplicações relacionadas à inteligência militar, ao rastreamento espacial e à observação de alvos.
Os parlamentares afirmam que o instituto chinês envolvido no projeto possui vínculos com a indústria de defesa do país asiático, o que, segundo eles, reforçaria preocupações sobre possíveis usos estratégicos da infraestrutura.
Telescópio BINGO é destacado
O documento dedica uma seção específica ao telescópio BINGO, atualmente em construção em São Paulo e destinado à Serra do Urubu.
Segundo o relatório, os algoritmos desenvolvidos para filtrar interferências de rádio poderiam, em tese, ser adaptados para detectar sinais relacionados a radares militares, telemetria de satélites e atividades de guerra eletrônica.
Os autores do relatório sustentam ainda que uma rede de estações espaciais chinesas na América Latina poderia contribuir para o monitoramento de comunicações, navios, aeronaves e objetos espaciais em diferentes regiões do mundo.
Recomendações aos Estados Unidos
Ao final do documento, o comitê recomenda que o governo dos Estados Unidos reavalie acordos de cooperação espacial envolvendo países que hospedam infraestrutura chinesa, amplie restrições relacionadas ao setor e adote medidas para conter a expansão de projetos ligados à China no hemisfério ocidental.
O relatório foi produzido pelo Comitê Especial da Câmara dos Representantes sobre o Partido Comunista Chinês, grupo responsável por analisar temas relacionados à segurança nacional, tecnologia, influência geopolítica e atividades do governo chinês no cenário internacional.
Até o momento, o texto apresentado pelo comitê americano representa a avaliação dos parlamentares responsáveis pelo estudo. O documento não apresenta acusações criminais nem indica que autoridades brasileiras tenham reconhecido irregularidades nos projetos citados.
Fonte/Créditos: Paulo Cappelli - Correio da Manhã
Créditos (Imagem de capa): O Congresso dos EUA, em Washington D.C., também conhecido como Capitólio; o edifício é a sede da Câmara e do Senado norte-americano Divulgação/Unplash Harold Mendoza... Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/internacional/pesquisa
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