O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, na quinta-feira (6), o lançamento do Fundo Floresta Tropical Para Sempre, um programa que prevê o pagamento de US$ 4 por hectare preservado como forma de incentivar a conservação ambiental.
Apesar da comemoração do governo, o valor, reconhecido pelo próprio presidente como “modesto”, levantou críticas e comparações com o potencial econômico da agricultura. Em áreas da Região Norte, especialmente na Amazônia, a diferença entre o que se ganha ao preservar e ao produzir chega a 500 vezes.
Diferença de valor: floresta preservada x agricultura
Segundo dados do governo federal, cada hectare de soja na região amazônica rende, em média, 4,7 toneladas do grão, o equivalente a 77 sacas. Com o preço atual de US$ 26 por saca, a produção gera cerca de US$ 2 mil por hectare — valor 500 vezes superior ao pagamento prometido pelo programa ambiental do governo.
Críticos apontam que o modelo não leva em conta o custo de oportunidade para as famílias que dependem do uso produtivo da terra. Em muitas comunidades, a ausência de trabalho rural ou de incentivo à produção sustentável pode agravar a desigualdade econômica e aumentar a dependência de auxílios públicos.
Fundo centralizado e destinação parcial
O Fundo Floresta Tropical Para Sempre prevê que os repasses serão feitos diretamente ao governo, e 20% dos recursos terão destinação obrigatória para povos indígenas. A medida contrasta com o modelo agrícola, no qual a maior parte da riqueza gerada permanece sob gestão da iniciativa privada, impulsionando a geração de empregos e tributos locais.
Especialistas lembram que esse modelo de estímulo à produtividade foi o que transformou o Cerrado brasileiro em um dos maiores polos de prosperidade agrícola do mundo.
Lições do Cerrado: tecnologia e parceria público-privada
Há poucas décadas, as terras do Cerrado eram vistas como improdutivas. A expressão entre agricultores era conhecida: “nem dado, nem herdado”. Isso começou a mudar com a criação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) na década de 1970, que, em parceria com produtores rurais, desenvolveu tecnologia e inovação para adaptar a agricultura tropical ao solo brasileiro.
O resultado foi uma revolução agrícola: o Cerrado, antes considerado inviável, tornou-se o epicentro da produção mundial de grãos. E, ao contrário do imaginário comum, o avanço agrícola foi acompanhado por métodos de preservação ambiental, como o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que permite produzir e conservar ao mesmo tempo.
Agricultura produtiva e preservação coexistem
Técnicas como a ILPF mostram que é possível manter a floresta em pé e, ainda assim, gerar riqueza. O modelo alterna áreas de plantio, pasto e regeneração, permitindo a sustentabilidade econômica e ambiental.
Para analistas, o contraste entre a produtividade da agricultura e o pagamento simbólico do Fundo Floresta Tropical Para Sempre ilustra um desequilíbrio de prioridades. Enquanto o país já demonstrou ser capaz de conciliar produção e preservação, o novo programa, dizem críticos, pode se tornar mais uma política de subsistência do que de desenvolvimento.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Reprodução