Em uma ilha remota do Pacífico, numa antiga pedreira no topo de um vulcão, Maria Tuki passa por figuras inacabadas esculpidas em rocha.
Os rostos rústicos dessas figuras carregam sobrancelhas franzidas e narizes inclinados, que ficaram famosos no mundo todo. Essa é a terra dos moais, as icônicas estátuas humanas de Rapa Nui, também conhecida como Ilha de Páscoa, uma ilha isolada de 163,7 km² e que fica a 3.500 quilômetros da costa do Chile.
Antes da minha visita, eu esperava ver apenas alguns desses rostos famosos em pontos turísticos específicos. Mas a quantidade de moais é de tirar o fôlego. Alguns estão espalhados ao longo das estradas, à beira da costa e nas encostas dos morros. Juntos, eles formam uma lembrança física e concreta da história ancestral dessa terra.
Séculos atrás, os ancestrais de Tuki esculpiram e entalharam centenas de monolitos como os que hoje estão aqui. Há evidências dessa atividade por todo lado, tanto na pedreira, onde alguns ainda estão profundamente incrustrados na montanha, quanto na terra ao redor, onde estátuas finalizadas foram abandonadas, formando caminhos até a beira da ilha.
Acredita-se que grupos de trabalhadores às vezes perdiam o controle ao transportar as estátuas para as plataformas de pedra espalhadas pela costa.
À primeira vista, os imponentes moais, com suas expressões sérias, parecem resistentes. Mas eles são feitos de tufo, uma rocha vulcânica composta principalmente por cinzas compactadas. Esse tipo de pedra é porosa e macia. O vento e a chuva não perdoam.
De perto, os rostos envelhecidos dos moais estão cheios de sinais de erosão e manchas. Eles estão gradualmente se desfazendo em pó. Tuki, que trabalha na indústria de turismo em Rapa Nui, tem assistido essas figuras impressionantes desaparecerem aos poucos.
"Meu pai me disse: 'um dia os moais retornarão para o oceano'."
O pai de Tuki, que morreu em 2020, era um renomado escultor contemporâneo de moais.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/Q/I/0YfiKFTTyAq9FgyQwxVw/19a25690-608d-11f0-960d-e9f1088a89fe.jpg.webp)
As estátuas originais, a maioria delas esculpidas entre 1100 e 1600 d.C, têm sido alvo de esforços de conservação, já que a erosão — acelerada pelas mudanças climáticas — ameaça destruí-las.
Líderes comunitários na Ilha de Páscoa estão procurando formas de monitorar e mitigar esses danos, tentando de tudo: desde tratamentos químicos até o uso de drones para escaneamento 3D das estátuas, antes que elas desapareçam.
Todas as opções estão sendo consideradas enquanto a comunidade tenta lidar com essa rápida transformação de seu patrimônio — seja realocando as estátuas para locais mais seguros, seja permitindo que elas sucumbam, como "parte do seu ciclo de vida", argumentam alguns.
Há aproximadamente mil estátuas na ilha em vários estágios de finalização, com cerca de 200 posicionadas em suas plataformas finais, conhecidas como ahu. A maioria dessas plataformas fica ao longo da costa da ilha, de frente para o mar.
A criação e a deterioração dos moais
Os moais foram criados pelas primeiras comunidades de povos polinésios que viveram na ilha para representar os ancestrais e a família do chefe Hotu Matu'a, que acredita ter sido o primeiro a ocupar Rapa Nui — após chegar de canoa vindo de uma ilha da Polinésia Oriental.
Em algum momento entre o fim do século 18 e início do século 19, as estátuas foram misteriosamente derrubadas, provavelmente porque um novo movimento religioso ganhou força na ilha, ou possivelmente por causa de algum conflito. Historiadores ainda não encontraram uma resposta definitiva para essa questão.
Por conta da história impressionante dessas enormes estátuas de pedra, o Parque Nacional de Rapa Nui foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco, em 1995.
Ainda assim, os moais não são estátuas perfeitas e intocadas, protegidas do ambiente ao redor. Na verdade, elas começaram a se deteriorar assim que foram esculpidas, de acordo com o livro Death of a Moai (Morte de um Moai, na tradução livre para o português) da historiadora Elena Charola, publicado em 1997.
Segundo Charola, o tufo foi submetido a muito estresse ao ser cortado e talhado na pedreira, depois desgastado pelas cordas e arranhado durante a longa jornada morro abaixo.
Desde o dia em que foram erguidos, o sol, o vento, a chuva e as variações de temperaturas também passaram a desgastar os moais.
Quando a umidade vinda da maresia evapora, o sal cristaliza-se dentro do tufo vulcânico macio e se expande, fazendo com que a estátua descasque ou lasque, criando rachaduras finas e cavidades em formato de favos de mel. Eu vi líquens crescendo na superfície de muitas estátuas, com a aparência de erupções concêntricas.
Os animais também interferem nos moais. Cavalos e gado acabam se coçando nos monolitos enquanto os pássaros cravam as garras no tufo e depositam excrementos tóxicos, o que erode ainda mais o material. Em 2020, um caminhão acidentalmente colidiu com uma das estátuas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/W/x/QswlXfTrCH4z6cYAdU0g/69020280-608d-11f0-a40e-a1af2950b220.jpg.webp)
O mais preocupante, no entanto, é que a erosão dos moais parece ter aumentado bastante nas últimas décadas, segundo Daniela Meza Marchant, conservadora-chefe da comunidade indígena Ma'u Henua, que administra o Parque Nacional de Rapa Nui.
Ela aponta que as imagens e registros do século passado mostram que as alterações aumentaram nos últimos 50 anos comparado aos 50 anteriores.
Na verdade, de acordo com um relatório da Unesco de 2016, os moais da Ilha de Páscoa estão entre os patrimônios mais afetados pelas mudanças climáticas no mundo todo.
Ao longo das últimas décadas, as chuvas na Ilha de Páscoa diminuíram drasticamente, se tornando mais esporádicas e também mais intensas, atingindo os moais de forma mais agressiva do que antes.
A ilha já tem pouca cobertura de árvores, mas as secas frequentes secaram as reservas de água doce e aumentaram o risco de queimadas.
Um incêndio em outubro de 2022 queimou e rachou cerca de 80 moais em Rano Raraku, a cratera vulcânica que abriga a famosa pedreira onde muitos monolitos foram esculpidos. Os danos foram "irreparáveis, com consequências além do que se pode ver a olho nu", disseram as autoridades na época.
O aumento do nível do mar e de eventos extremos de ondas também estão erodindo a ilha. Esse é um dos perigos mais iminentes para os moais, segundo o relatório da Unesco, já que mais de 90% dos monolitos ainda de pé estão posicionados ao longo da costa.
Tentativas de salvar os moais
As pessoas já tentaram salvar os moais antes. Durante duas décadas, a partir de 1970, o arqueólogo americano William Mulloy realizou diversos trabalhos de restauração na ilha, reerguendo as estátuas e reconstruindo plataformas fragmentadas que haviam sido derrubadas em massa no início dos anos 1800.
Em 1990, um sítio chamado Tongariki, que tinha sido varrido por um tsunami durante a década de 60, teve seus moais reerguidos por arqueólogos locais.
Mais recentemente, em 2003, um projeto da Unesco financiado pelo Japão aplicou um agente químico nas estátuas de Tongariki para impermeabilizá-las, com objetivo de tornar o tufo mais resistente à maresia.
Contudo, o tratamento, além de caro e delicado, deve ser reaplicado a cada 5 ou 10 anos, o que representa um peso para os poucos recursos locais disponíveis. De acordo com a revista local MoeVarua Rapa Nui, "vários outros locais aguardam essa intervenção preventiva".
Alguns esforços de conservação, no entanto, deram errado. Em 1986, pesquisadores do Museu de História Natural Senckenberg, na Alemanha, fizeram moldes de silicone das estátuas para criar réplicas, mas, de forma inadequada, acabaram arrancando uma camada superficial do tufo dos monolitos, erodindo as estátuas ainda mais.
"A cor das pedras foi completamenta alterada", observa um estudo sobre o incidente.
Hoje, a preservação dos moais vem melhorando constantemente, com ajuda de novas tecnologias e, ocasionalmente, de recursos vindos de organizações internacionais.
Para tentar conter os impactos do aumento do nível do mar, em 2018, arqueólogos locais reforçaram duas estruturas parecidas com muros de contenção em um sítio moai chamado Runga Va'e, para evitar que as ondas avançassem sobre a plataforma ahu.
Eles também reconstruíram partes da plataforma que havia desmoronado com o tempo e a reforçaram. A equipe usou drones para fazer escaneamento 3D da área, o que permitiu planejar o trabalho de restauração e conservação sem a necessidade de escavações grandes e invasivas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/V/J/yOeFUETU6nFRH1kQOjxw/b88f7530-608d-11f0-960d-e9f1088a89fe.jpg.webp)
A organização sem fins lucrativos CyArk, com sede nos EUA, também tem ajudado o povo Rapa Nui a criar modelos 3D mais precisos de todos os ahu e moais da ilha usando drones, câmeras e scanners a laser.
"Você tira milhares de fotos sobrepostas e, a partir delas, cria um modelo 3D com base nos pontos em comum entre as diferentes imagens", explica Kacey Hadick, gerente do programa de patrimônio da CyArk, que trabalha na ilha desde 2017.
"Isso pode ajudar a monitorar mudanças ao longo do tempo, taxas de erosão, além de fornecer um registro muito preciso do estado atual das coisas."
Em 2023, a subsecretária de patrimônio cultural da Unesco, Carolina Pérez Dattari, destinou US$ 97 mil (cerca de R$ 539 mil na conversão atual) para avaliação de danos, reparos e elaboração de planos de gestão de risco para os moais que foram queimados pelos incêndios em 2022.
Depois de uma análise inicial, em maio de 2025, a equipe da Ma'u Henua iniciou o trabalho físico de conservação para esse projeto em cinco dos moais mais afetados pelo fogo, segundo Ariki Tepano Martin, presidente da Ma'u Henua.
A conservadora-chefe Meza Marchant montou coberturas para proteger os moais das condições climáticas e reduzir os níveis de umidade. Agora, ela está tratando os prejuízos causados pelas queimadas com uma solução química desenvolvida especialmente para os moais por restauradores de pedra da Universidade de Florença, que trabalham com o povo Rapa Nui desde 2009.
Fonte/Créditos: G1
Créditos (Imagem de capa): Reprodução