Quando o calendário eleitoral aperta, até a sede do PT vira casa de oração
Existe algo de profundamente revelador quando um partido político decide abraçar a fé — não por convicção, mas por conveniência. E o calendário não mente.
A três meses das eleições de 2026, o PT promoveu nesta terça-feira (30), em sua sede nacional em Brasília, o primeiro Encontro Nacional de Católicos e Católicas da legenda. A primeira-dama Janja da Silva e o presidente nacional do partido, Edinho Silva, estavam entre as presenças confirmadas.
Primeiro. Nacional. De católicos.
O PT tem mais de quatro décadas de existência. Mas só agora, com a eleição batendo à porta, descobriu que precisa conversar com o eleitorado católico. Que coincidência extraordinária.
A agenda da devoção eleitoral
O evento reuniu representantes de diversas regiões do país para debater temas como “bem comum”, “justiça social” e “defesa da população mais vulnerável”. A programação incluiu lideranças leigas e religiosas, entre elas dom Vicente de Paula Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, além dos frades David Santos e Frei Betto.
Ao final, seria apresentada a “Carta das Católicas e dos Católicos” — um documento com compromissos políticos definidos pelos participantes.
Compromissos políticos. Não espirituais. Políticos.
E aí está o ponto que ninguém quer dizer em voz alta: o PT não está buscando diálogo com a fé. Está buscando votos entre os fiéis.
Uma peregrinação eleitoral completa
E Janja, que não ocupa cargo eletivo, não presta contas a ninguém e não tem mandato popular, aparece como peça central dessa ofensiva religiosa. No início do mesmo mês, ela já havia participado do 4º Encontro Nacional de Evangélicos do PT, também na sede da legenda.
Evangélicos num dia. Católicos no outro. A versatilidade devocional é impressionante.
O seminário evangélico trouxe a temática “Fé, Justiça e Democracia” e contou com aliados como o deputado Henrique Vieira (PSOL-RJ) e o coordenador do Setorial Inter-Religioso do PT, Gutierres Barbosa.
Agora compare: durante os mandatos anteriores de Lula e durante boa parte do atual, a relação do PT com o eleitorado religioso oscilou entre a indiferença e o confronto. A legenda historicamente abraçou pautas que a distanciaram dos setores mais conservadores da fé cristã — católicos e evangélicos. Mas quando a urna se aproxima, a memória institucional se apaga como por milagre.
O papel de Janja
Há uma pergunta que ninguém faz, mas deveria: qual é, exatamente, a função institucional de Janja nesses encontros? Ela não é ministra. Não é secretária. Não foi eleita. Não representa formalmente o governo em nenhuma instância.
Mas está lá, em todos os eventos estratégicos. Nos encontros com evangélicos. Nos encontros com católicos. Sempre na sede do PT.
A primeira-dama se converteu, na prática, em uma operadora política sem mandato e sem accountability. Age como braço eleitoral do governo, mas sem nenhuma das amarras que a legislação impõe a quem ocupa cargo público.
É o melhor dos dois mundos: a influência do poder sem o ônus da responsabilidade.
Fé ou cálculo?
O oportunismo é tão transparente que chega a ser desrespeitoso — não com a política, mas com os próprios fiéis. Católicos e evangélicos não são blocos monolíticos a serem capturados por uma “carta” redigida na sede de um partido. São pessoas com convicções profundas, que merecem mais do que serem tratadas como demografias a conquistar em ano eleitoral.
Mas para o PT de Lula e Janja, a fé parece ter uma utilidade muito específica: ela serve quando o calendário manda.
A pergunta que fica é simples: se o PT vencer em outubro, alguém acredita que haverá um segundo Encontro Nacional de Católicos? Ou a devoção terá cumprido seu propósito e será discretamente guardada até a próxima eleição?
A resposta, todo mundo já sabe. Inclusive os fiéis.
Fonte/Créditos: Contra Fatos
Créditos (Imagem de capa): Foto: Ricardo Stuckert / PR
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