Se há um tipo de personagem recorrente na história do poder, especialmente nas tragédias políticas do século XX, é o covarde com autoridade. Um sujeito que, escorado por uma ideologia totalitária, um partido implacável ou uma turba obediente, sente-se invencível — até que o palco desabe. E aí, quando as luzes se apagam e o bastão de comando lhe escapa das mãos, ele chora. Ele implora. Ele se vitimiza
A psicologia tem nome para isso. A chamada “síndrome do autoritário covarde” — observada desde os julgamentos de Nuremberg e ratificada por estudos modernos (Zillmer et al., 1995; Kealy et al., 2017) — mostra que muitos líderes autoritários desenvolvem uma couraça de brutalidade que desaparece assim que perdem a proteção institucional. Eles não eram valentes — eram apenas funcionais dentro de uma engrenagem de impunidade.
O Experimento de Stanford, conduzido por Philip Zimbardo em 1971, evidenciou que até civis comuns, quando colocados numa estrutura de poder sem responsabilização, se transformam em verdugos. Mas, ao serem confrontados, voltam a ser homens comuns — frágeis, arrependidos ou revoltados com a "injustiça" de serem tratados como criminosos. Um ciclo típico de abuso e vitimização.
Esse padrão encontra ecos grotescos na história dos regimes comunistas e socialistas do século passado. Os exemplos são abundantes — e reveladores.
Deus no palanque, réu no tribunal
Nicolae Ceaușescu, ditador socialista da Romênia, é um caso emblemático. Durante décadas, governou com mão de ferro, idolatrado pela propaganda e temido pela polícia secreta. Mandou prender, torturar e matar opositores com frieza absoluta. Mas no fim de 1989, quando o povo enfim se levantou, o poderoso "pai do povo" foi preso com a esposa e submetido a um julgamento sumário. O que se viu foi um homem acuado, em pânico, chamando o tribunal de “ilegítimo” e pedindo compaixão. Foi executado no mesmo dia. Até os soldados que assistiram ficaram impressionados com a súbita covardia do homem que, até dias antes, mandava matar.
Erich Honecker, líder da Alemanha Oriental, era outro exemplo. Durante décadas, serviu ao aparato soviético, vigiando cidadãos, perseguindo dissidentes e colaborando com o muro que separava famílias e esmagava liberdades. Quando o regime caiu, foi tratado por muitos como um monstro. Mas na justiça da Alemanha reunificada, apresentou-se como um velhinho doente, vítima de perseguição, tentando comover a opinião pública e desviar o foco de seus crimes.
O mesmo se viu com Slobodan Milošević, o socialista iugoslavo que incitou guerras étnicas sangrentas nos anos 90. No tribunal de Haia, transformou-se num reclamante compulsivo, acusando o Ocidente, a OTAN, os juízes, os médicos — todos, menos ele mesmo. O homem que deu ordens para massacres passou seus últimos anos tentando parecer oprimido.
A brutalidade que se alimenta da ideologia
No núcleo do comunismo e do socialismo real, há uma dialética perversa entre o discurso de igualdade e a prática de perseguição. Quando no poder, esses regimes promovem a **despersonalização moral** dos opositores, como demonstraram os estudos de Milgram e Zimbardo: perseguir, calar, humilhar vira ato de “justiça histórica”. A impunidade moral se esconde sob o manto da ideologia.
Mas quando o poder ruge menos, os mesmos que ordenavam fuzilamentos e prisões arbitrárias se dizem vítimas. Vítimas do sistema, do capital, da direita, do colonialismo, da história. É uma performance teatral, bem treinada.
A ameaça permanece viva
O problema é que essa lógica não pertence apenas ao passado. Em democracias fragilizadas, certos indivíduos com mentalidade autoritária ganham cargos, ministérios, até togas — e se comportam do mesmo modo: são valentes nas redes sociais, soberbos nas coletivas, cruéis contra o cidadão comum. Mas basta que percam o foro, ou que seus cúmplices deixem o barco, e logo surgem chorosos, perseguidos, injustiçados.
São os mesmos que demonizam adversários políticos como “nazistas” enquanto flertam com os métodos da KGB. Os mesmos que defendem “democracias populares” mas fogem de debates públicos como o diabo da cruz. Porque no fundo, sabem: sem a máquina por trás, não passam de burocratas medrosos com complexo de ditador.
O Brasil no bonde errado da história.
A história não perdoa, mas também não ensina quem se recusa a ap
render. Enquanto houver quem confunda autoridade com autoritarismo, e coragem com covardia institucionalizada, o ciclo continuará: valentões no poder, vítimas na queda. E o povo no meio — sempre pagando a conta. E hoje, o Brasil flerta com isso.
Nos últimos anos, assistimos a uma campanha implacável de perseguição à direita conservadora no Brasil. Políticos, influenciadores, jornalistas e até cidadãos comuns foram alvo de processos, censuras, quebras de sigilo, prisões preventivas e retaliações judiciais — frequentemente sob pretextos frágeis e com apoio explícito de setores da grande mídia. Um regime de intimidação disfarçado de justiça.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo direto dessa máquina persecutória, está sendo processador com o objetivo de impedí-lo de disputar as eleições de 26. Ameaçado com prisão, calado em eventos públicos ainda quando Presidente e tratado como inimigo da República. Seus apoiadores, por sua vez, foram ridicularizados, criminalizados e rotulados como “golpistas”, em virtude de uma baderna estimulada por poucos e ignorando o histórico de protestos pacíficos em toda sua história. Tudo isso sob um ar de impunidade institucional para os perseguidores — valentes com o uso da máquina, falando de justiça e democracia.
Mas bastou um gesto inesperado: o presidente americano Donald Trump se posicionando em defesa de Bolsonaro, em uma postagem incisiva, mandando um recado direto ao Judiciário e aos políticos brasileiros. E o que se viu foi digno de estudo psicológico: os mesmos personagens que perseguem sem piedade, que intimidam com discursos grandiloquentes sobre “democracia” e “ameaças fascistas”, correram para se vitimizar, gritando “interferência externa”, “ataque à soberania” e “ameaça à nossa justiça”, ou ficando em silêncio sepulcral.
Covardia clássica. Quando podem prender, censurar ou constranger, posam de heróis da democracia. Mas diante de uma crítica internacional, tremem. Usam o manto da nação como escudo. A hipocrisia se revela.
Guilhotina metafórica? Só quando convém
Outro exemplo ilustrativo: o professor da UFRJ, Marcos Dantas, que chocou o país ao sugerir o uso de uma guilhotina contra a filha do empresário Roberto Justus.. Em um país minimamente civilizado, isso seria repudiado com vigor por todas camadas da sociedade. Mas não no Brasil dos covardes de esquerda e do autoritarismo travestido de justiça social.
Ainda assim, a indignação pública veio forte. E então — como manda o script — o professor correu às redes sociais para se justificar, dizendo que era tudo “metáfora”, que falava de desigualdade, que não desejava o mal de ninguém. Covardia pura. Palavras fortes para o palco, lágrimas para os bastidores.
Pior: bastou uma pequena busca para encontrar outra postagem anterior onde ele repete a exaltação à guilhotina e afirma textualmente que “não é metáfora”. Fica exposta, então, a duplicidade: valentia performática na bolha ideológica, mas covardia disfarçada de arrependimento quando a maré vira.
Essa é nova face do velho autoritarismo
Esse comportamento não é novo — ele apenas mudou de roupa. A brutalidade revolucionária que decapitava reis na França, que fuzilava opositores na URSS, que silenciava jornalistas em Cuba ou que esmagava protestos na Venezuela agora se veste com ares de legalidade, tribunais superiores, pareceres técnicos, editoriais laudatórios e liberdade de expressão conveniente.
Mas o padrão psicológico permanece: o valentão de palanque se transforma no chorão de bastidor assim que perde o aplauso da corte ou é confrontado por alguém de fora do jogo. Seja Trump, seja a opinião pública.
A história não perdoa — mas o Brasil corre o risco de repeti-la. Enquanto a coragem for usada apenas para punir os adversários, e a fragilidade só aparecer quando os aliados somem, teremos mais do mesmo: um teatro de valentia seletiva e vitimização estratégica. E o povo — mais uma vez — assistindo, pagando e sofrendo.