Primeiro lugar, temos que perder a preguiça de ler. Não podemos desanimar se determinado texto tem 5 ou mais páginas e um tempo de leitura estimado em mais de 10minutos. Ler é uma forma segura de descobrirmos o que aconteceu de errado no passado, com outros povos, a fim de que não incidamos nos mesmos erros.
Ler, enfim, é uma forma, barata, de aprendermos com os erros e acertos alheios. Ainda que os o caos seja inevitável e que humanidade viva um loop de caos-coragem para mudar-bem estar-caos a leitura faz com que você, pelo menos, entenda estar dentro do loop e, de certa forma, preparar-se a ele.
Falamos neste artigo do livro Arquipélago Gulag (seguramente o livro mais importante escrito no Século XX).
O que nos chama a atenção na obra citada é fato de que as pessoas que eram presas pela NKVD¹ aceitavam passivamente, bovinamente, aquela detenção como se a tentativa de resistência pudesse agravar, ainda mais, suas condições de “inimigas do Estado”.
Quase 100 anos após, quando sequer imaginávamos a possibilidade de uma nova Onda Totalitária alastrar-se pelo mundo vemos o mesmo acontecer. Pessoas que cometeram o único crime de pensar livremente e contraporem-se ao Pensamento Único imposto pelo Estado, seja no que diz respeito ao processo eleitoral, seja no que diz respeito à pandemia foram presas, tiveram suas casas invadidas pela Polícia Federal.
Várias destas vítimas relatam terem sido corteses com seus carrascos² chegando, até mesmo, a lhes oferecer café. Totalmente errado. Não se normaliza a condição de carrasco. Não se dá sorriso condescendente a um verdugo.
Pior, estas pessoas, quando presas e/ou tiveram suas casas invadidas, evitaram gritar, poupando-se a si próprio (e também aos verdugos) da vergonha, do escândalo. Outro erro gravíssimo. Algumas delas hoje estão há mais de 2 anos exiladas do Brasil, sem poder ver e abraçar seus familiares.
Valeu a pena evitar o escândalo?
Certamente que não.
Entendam uma coisa, amigos, no momento que o Estado virar seu canhão para você, sua vida civil restará – completamente – destruída³. O mínimo que você pode fazer é gritar, com sua capacidade máxima pulmonar.
No pior dos cenários, alguém irá filmar a imagem grotesca de capangas arrastando um inocente ao cárcere e isso poderá comover alguém, quiçá um Juiz, quiçá um jornalista estrangeiro (daqueles que não fazem parte do Consórcio, sim, eles existem).
Tenha a mais plena certeza que agravada sua situação não será. Aliás – neste hipotético, mas cada dia mais provável⁴, cenário – você está sendo preso sem base legal alguma. O que pode existir de pior que isso? Será que temos que lembrar o óbvio?!
Será que temos que lembrar que um jornalista entrou andando e saiu de cadeira de rodas da sede da Polícia Federal em Brasília?
Resista! Grite!
(abaixo, transcrevemos trechos esclarecedores, sobre o tema proposto, de Arquipélago Gulag).
“E depois, nos campos de tortura! E se cada agente de cada vez que vai fazer as detenções, pela noite, não tivesse a certeza de voltar vivo e tivesse de se despedir da família?! Se durante as detenções em massa, como por exemplo em Leningrado, quando foi presa a quarta parte da população da cidade (em dezembro de 1934, após o assassinato de Kirov), as pessoas não tivessem permanecido em suas tocas tremendo de medo a cada pancada na porta.”⁵
‘A resistência! Onde esteve a vossa resistência?’ é a recriminação que fazem hoje os que sofreram àqueles que escaparam à repressão.
Sim, a resistência devia ter começado a partir daqui, do início da detenção. Mas não teve começo.
No ano de 1927, quando a submissão ainda não havia amolecido nossos cérebros, na Praça de Serpukhóvskaia dois tchequistas tentaram deter uma mulher. Ela agarrou-se a um poste de iluminação pública e começou a gritar, oferecendo resistência. Juntou-se uma multidão. (Era necessário uma mulher assim, mas também era necessário uma multidão assim! Nem todos os transeuntes fecharam os olhos, nem todos apressaram o passo indiferentes!) Os nossos ágeis rapazes desconcertaram-se de repente. Eles não podiam “trabalhar” à vista de toda a sociedade. Subiram para o automóvel e fugiram. (...)
Mas se dos seus lábios ressequidos não brota nem um som, a multidão que transita descuidadamente toma a você e aos seus carrascos por amigos que passeiam.
Eu⁶ próprio tive muitas vezes a oportunidade de gritar”⁷
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³ Sejamos francos, vocês confiaram seus segredos a um Advogado ou a um Psicólogo arrolado num dos Inquéritos do Fim do Mundo?!
⁴ E há três anos, pelo menos, dizemos que as prisões/perseguições ilegais contra Daniel Silveira, Luciano Hang, Allan dos Santos, dentre outros, é amostra grátis do que enfrentaremos no ano de 2.023, caso Lula venha a tomar posse.
⁵ SOLJENÍTSIN, Alexandr. Arquipélago Gulag. Difel. São Paulo. 1976. (pgs. 24, nota de rodapé número “4”).
⁶ O próprio autor do livro, Alexandr Soljenítsin.
⁷ SOLJENÍTSIN, Alexandr. Arquipélago Gulag. Difel. São Paulo. 1976. (pgs. 26/27).