A negação é um termo teórico, que passou a ser usado no dia a dia distorcendo o seu significado.
Segundo o vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis, negação é o “processo pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos até então recalcados, continua a defender-se dele negando que lhe pertença; não reconhece percepção de um acontecimento que existe no mundo”.
Para desconstruir o falso eu e identificar as máscaras que usamos dia após dia, ano após ano nós precisamos acordar do transe da negação e da racionalização.
Negação e racionalização não é uma brincadeira. Trata-se de mecanismos do nosso ego que podem literalmente acabar com a dignidade e a capacidade de criar a vida que queremos.
A negação se assemelha ao modo de hibernar de nosso notebook; o notebook continua ligado, mas operando no modo de economizar energia.
Da mesma maneira, a negação e a racionalização preservam temporariamente os nossos recursos, pois elas nos entorpecem, impedindo-nos de sentir, evitando que tenhamos de lidar com as emoções dolorosas que se ocultam por trás da negação e da racionalização.
A negação doentia é ativada quando a usamos como uma saída fácil, quando não estamos dispostos a enfrentar uma verdade sobre o que está acontecendo à nossa volta ou na nossa vida.
É muito semelhante à racionalização que segundo um autor cujo nome não me recordo afirmou: “Um dos passatempos da mente humana que mais lhe consome tempo é racionalizar sentimentos e apresentá-los com se fossem lógicos”.
Se quisermos ter alguma esperança de nos libertar do transe da negação e da racionalização, precisamos primeiro aprender a distinguir a voz interna sedutora.
Os generais do Alto Comando do Exército, segundo estamos vendo e ouvindo em suas entrevistas, dizem mais ou menos assim: Não é tão ruim. Podia ser pior. As coisas vão ser diferentes. Vocês não conseguem ver a totalidade. O Exército é legalista. Não fazemos política. Talvez tudo se ajuste naturalmente. Nós vamos dar um jeito no devido tempo. Nós sabemos o que estamos fazendo, etc...
Num estado de negação ou racionalização, não conseguem admitir o quanto estão feridos nem admitir para todos, as maneiras pelas quais violentaram todos aqueles que por 70 dias acamparam em frente aos quartéis clamando SOS Forças Armadas.
Durante a 2ª Guerra Mundial os alemães negavam as atrocidades cometidas pelos nazistas.
Quando estamos em negação ou racionalização não temos condições de ver o quanto os nossos comportamentos são inadequados e mentirosos
Os atuais generais estão procedendo como Michael Jackson; um homem adulto que convidava crianças para dormir com ele em sua cama, com autorização dos pais. Ele não via nenhum mal nessa atitude, mas outras pessoas certamente viam.
Quando vários generais compartilham uma negação ou racionalização, coisas ruins sempre acontecem. As pessoas que estão agindo de maneiras destrutivas ou prejudiciais podem se sentir à vontade para continuar agindo assim por meses ou anos. Tal como aconteceu na Alemanha e na Rússia, os generais negacionistas ou racionalizadores brasileiros não percebem que coisas ruins estão acontecendo aos nossos vizinhos ou com pessoas queridas e viram a cabeça para o outro lado e marcham alegremente entoando a canção “Tô nem aí, tô nem aí...” Os comandantes que assim agem argumentam que os problemas de outras pessoas não têm nada a ver com eles, que são pessoas de bem cuidando da própria carreira.
Esses generais não são só negacionistas, são cúmplices.
Texto inspirado na obra COMO ENTENDER O EFEITO SOMBRA NA SUA VIDA – Por que pessoas boas fazem coisas ruins, de Debbie Ford.