Hoje vamos de diegese cinematográfica.
Um voo aforístico sobre uma obra-prima argentina intitulada O Segredo Dos Seus Olhos.
O filme, à partida, consubstancia-se num enredo de suspense investigativo em torno de um crime bárbaro – estupro seguido de morte cruel – que ceifa a vida de uma jovem e viçosa esposa de um bancário.
Todavia, a cada take, a cada longo e curto plano, e à medida que a ação se desenrola, percebemos que é muito, mas muito mais que isso…
O título já dá o mote.
De fato, os olhos humanos falam – e de que maneira…
Um mero olhar carrega um sem número de palavras, intenções, desejos, aversões incalculáveis e, às vezes, inconfessáveis…
Vós bem o sabeis, não é verdade?
É só fazerdes um pequeno e honesto forcing introspectivo…
No filme a troca de miradas entre os dois protagonistas da trama – o oficial de justiça Benjamim Esposito (Ricardo Darin) e a procuradora Irene Hastings (Soledad Villamil) – são magistrais sabatinas sobre o intrépido fenômeno em apreço.
A afinidade, a atração ou o amor (recíproco, na película) sentido por outrem, por vezes, ou muitas das vezes, se vê recalcado, platonizado e / ou bloqueado pelas mais diversificadas razões: pela forma de se ser, do caráter de cada um, por razões morais, éticas (profissionais/ pessoais), por questões de estratificação social e / ou de condição econômica – quem nunca já o vivenciou?…
Por vezes o objeto de enlevo já está compromissada(o) com outrem, o que não quer dizer que a palavra entretanto dada acompanhe ou venha a resistir a um sentimento superveniente e arrebatador...
Às vezes somos nós nessa condição...
Por vezes é a crença de que não haverá reciprocidade, de que haverá rejeição... Um prato cheio esta nossa vida humana.
Um outro ponto (e desta feita num viés eminentemente masculino) a se extrair do brilhante filme prende-se com o fato de que há mulheres que ainda que não ostentem uma beleza estonteante enxergável à primeira vista, num breve convívio que se tenha com elas passamos a perceber aquele mágico sentimento duma beleza oculta e solene que irradia pela via da sutileza e descrição – que o diga Esposito e todo aquele que assiste à interpretação de Soledad na pele da carismática Irene...
A trama também reverbera e transversa a problemática da solidão desnudando essa atroz realidade humana.
A solidão alcança a todos em qualquer circunstância imaginada: solteiros, casados, introspectivos, extrovertidos, filhos únicos, com irmãos, famílias pequenas, grandes, abastadas, paupérrimas, pessoas mais isoladas, mais sociáveis – quem quer que seja!
Podeis estar sempre rodeados de amigos, conhecidos, colegas, família – não estais ilesos, sinto muito…
O filme, de outra sorte, nos transporta para a problemática da justiça formal, criminal e penal nas sociedades contemporâneas. Mormente, no quão ela se encontra desbalanceada, falha, errante, e no quão arrebatada e sequestrada ela foi pela maldita e revolucionária ideologia progressista (garantista da hediondez e dos direitos invertidos).
Lapidar e antológica, pois, a cena entre Esposito e Romano quando, após o indulto peronista do autor do hediondo crime perpetrado na trama, este diz àquele para “relaxar e se habituar à nova argentina que ali nascia”…
Uma justiça que se encontra longe de vir a reparar qualquer perda de um ente querido assassinado, estuprado, roubado, burlado (estelionato), etc…, levando a que qualquer pessoa vitimizada, direta ou indiretamente, mesmo a mais serena, assertiva ou magnânime, se veja na desesperada situação de querer fazer justiça pelas próprias mãos.
Hoje, no Brasil, por exemplo, está a tornar-se cada vez mais punível e sancionável proferir uma opinião contrária e crítica à narrativa oficial do estado kakistocrático do dinheiro do que traficar, roubar ou matar…
A ação na obra cinematográfica comuta entre os anos 70 (quando o crime é cometido) e os anos 90 quando os protagonistas se voltam a encontrar e Esposito, já aposentado, decide escrever um romance e partilhá-lo com sua superiora, amiga, confidente e amada Irene.
Os fenômenos sociais na década e 60, 70 e 80, na argentina, retratados en passant no filme, foram similares aos ocorridos em qualquer outro País do mundo civilizado – uma feroz globalização do liberalismo econômico, a passagem dum estado forte e com mão de ferro para as sociais-DEMOcracias e a implantação da ideologia progressista e marxista na educação e cultura.
O que será que os cantores intervencionistas de outrora cantariam sobre os podres e os males do aqui e agora?
Cadê os Caetanos, os Gilbertos, os Chicos Buarques da vida?
Desfrutando da nababesca vida que almejaram bradando cantigas que denunciavam a “ditadura local”, claro está, mas nada mais querendo opinar sobre a tirania que se globalizou, que grassa e rouba a cena – pudera, enriqueceram a partir dela…
Quais seriam os atuais “vampiros que comem tudo e não deixam nada” do cantor português Zeca Afonso?…
Genial previsão daquele que, lá atrás, e certa vez, dissera: “que os antifascistas do presente viriam a ser os mais acérrimos e indefectíveis defensores das tiranias futuras”…
O filme catapulta-nos, também, para a vivência sempre angustiante de quem tem uma ou mais filhas mulheres, mormente, quando elas passam a atingir a adultícia e, inevitavelmente, começam a desejar se relacionar com um par afetivo.
A angústia de antever se esse tal par amoroso a tratará do jeito que ela deverá e merece ser tratada, do jeito como tão bem fora criada, tratada e educada.
Não há, para aquele(a) que assiste à película no momento do estupro e assassinato da bela Liliana Calotto, como não sentir um forte embrulho estomacal, tristeza, dor e revolta imaginando estar ali, no lugar da personagem, a nossa filha, esposa, irmã, mãe, amiga…
A película tangencia e aborda, também, o conceito e o valor da genuína amizade.
Aquele tipo de amizade despretensiosa atrelada, muitas das vezes, a uma efetiva presença, um apoio, uma palavra, um sacrifício, até, advinda da amical relação que nunca temos, advirá ou esperamos vir da parte dum familiar ou cônjuge / parceiro(a)…
Por último, a obra traz à tona o pior dos castigos que poderá sobrevir a um ser humano vivente.
Não é a privação da liberdade de locomoção e de ir e vir, nem sequer a morte física.
É o isolamento relacional e a total ausência de comunicação com uma mísera alma que seja – o assassino Gomez que o diga, pois quando Esposito desvela o segredo mantido pelo sibilino Morales (o viúvo da trama) e descobre que este havia, não matado, mas encerrado Gomez numa cela concebida num anexo de sua isolada casa para a qual se mudara, passando, assim, a consubstanciar-se como juiz em causa própria e condenando, finalmente, aquela desumana besta à pena perpétua, apenação, essa, que considerava ser o mínimo numa eventual reparação à perda infligida, a única queixa que Gomez conseguira articular e verbalizar a Esposito (quando este adentrou no encarcerado espaço) não fora que o libertasse ou pudesse denunciar a situação, mas uma súplica para que fizesse com que Morales, ao menos, falasse ou conversasse com ele…
P. S. - Assistam ao filme legendado, mas com o áudio original, pois a forma única como soa o castelhano linguajar porteño é intratável, formidável e inigualável.
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as Peças com Intelecto, Lucidez e Cognição Impoluta