Toda a humana criatura gosta de acreditar que é boa em alguma coisa, quiçá melhor que as demais.
Ou vice-versa: que é ruim, nisto ou naquilo, e / ou pior que as outras.
Lanço-vos, então, e desde já, uma ilação que vos pode soar desconfortável: vós provavelmente estareis enganados sobre o quão bons ou ruins realmente sois.
Em muitas áreas da vossa vida é bem possível que estejais vos superestimando ou vos subestimando.
E o mais inquietante: as partes em que mais estareis equivocados serão, muitas das vezes, aquelas em que tendes mais certezas.
Eis vos confrontados com o Efeito Dunning-Kruger.
Um fenômeno psicológico que mostra como as pessoas menos competentes são geralmente as mais confiantes;
Que mostra o equívoco invisível que se esconde e escuda dentro de nós;
Que mostra como a ignorância, quando não reconhecida, vira arrogância;
E como a sabedoria, ao contrário do que parece, se veste de silêncio, dúvida e muita humildade.
Existe, pois, um tipo de vilão que não chega com gritos nem armas.
Ele não invade vossa casa, não rouba vosso dinheiro.
Ele simplesmente se instala, de camarote, no âmago da vossa mente.
E é perigoso, pois vos faz acreditar que sois o que não sois.
Esse vilão se chama ignorância, mas não qualquer ignorância. Não aquela que diz: “eu não sei”, mas antes a que grita: “eu tenho certeza”.
Uma ignorância que se fantasia de conhecimento.
Que confunde confiança com competência e sapiência.
Que enxerga dúvida como fraqueza.
O Efeito Dunning-Kruger denuncia uma armadilha perfeita que, tarde ou cedo, a todos acomete, porque para reconhecer nossa própria incompetência seria preciso um “sincericídio” que a esmagadora maioria de nossos egos denega.
É como tentar ver o mundo com os olhos vendados e jurar que ele é escuro só porque não enxergamos.
Como alguém pode estar tão errado e ainda assim tão convicto de que está certo?
Este foi o problema indagatório que deu início à investigação de Dunning, investigação, essa, que contou com a estreita colaboração de seu aluno à época – Justin Kruger.
Juntos eles desenharam uma série de experimentos para testar uma hipótese ousada: a de que a incompetência severa – a burrice – não apenas nos impede de acertar; ela também nos cega para o próprio erro;
Que quanto menos uma pessoa sabe, mais ela acredita que sabe; E que quanto mais ela sabe, mais ela percebe o quanto ainda ignora.
Eles recrutaram participantes e aplicaram testes de humor, lógica e gramática. Após cada teste pediram que os voluntários avaliassem sua própria performance e também estimassem como haviam se saído em comparação aos demais.
O resultado foi alarmante.
Os piores desempenhos vieram acompanhados das maiores autoconfianças. Não apenas erravam mais, mas acreditavam que tinham ido muito bem. Os melhores participantes, por outro lado, subestimavam suas respostas. Achavam que os outros também haviam acertado tanto quanto eles. Ou seja, quanto mais sabiam, mais humildes se mostravam. E quanto menos sabiam, mais certos estavam de suas verdades.
Fora, pois, a confirmação de algo que Bertrand Russell já dizia décadas antes: “O problema da humanidade é que os estúpidos estão cheios de certezas, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”.
A ignorância atrevida é o vilão invisível da nossa era.
E talvez o mais trágico seja isso: quanto mais forte ela se torna, mais silencia a voz da dúvida.
Visualizai o gráfico da imagem de capa que encabeça a presente dissertação.
No eixo horizontal, o quanto vós realmente sabeis sobre um assunto.
No eixo vertical, o quanto vós achais que sabeis.
Agora vede o que acontece no início da curva.
Vós mal começastes a aprender sobre algo, mas vossa confiança dispara.
Esse pico é conhecido como o “monte da estupidez”.
O ponto onde a ignorância é tão profunda que se confunde com a soberba altivez.
É aqui que surgem, se situam e proliferam toda a sorte de “especialistas de araque”.
Os autodeclarados “gênios do churrasco”…
A confiança sobe, pois, mais rápido que o conhecimento, e o resultado é um ego inflado sustido em pés de barro.
Mas, eis que, com certas e determinadas pessoas, algo acontece.
Elas continuam estudando. Passam a ir além do superficial. E começam a perceber que o assunto é mais complexo do que à partida parecia e faria supor.
É aí que despencam do alto da sua "nesciodidade" e caem no vale da angústia e desesperança.
O momento em que passam a ver o tamanho real daquilo que não sabem. Que o buraco é bem mais embaixo e, quiçá, sem fundo...
É doloroso, dilacerante, até, mas é também o marco que inaugurará a jornada pela busca das respostas, do desvelo e da real sabedoria.
E é só a partir desse ”vale sombrio” que começará uma nova e venturosa, esta sim, ascensão – a genuína rampa da iluminação e epifania.
Uma jornada mais lenta e gradual, mas mais real.
Nela vossa confiança será resgatada, mas agora baseada em conhecimento factual e substancial.
O citado gráfico não é apenas uma imagem didática.
É um espelho.
Mostra que o problema não é estar no “monte” ou no “vale”, mas achar que já se chegou ao topo, quando ainda se está no “daninho sopé da montanha”.
Exploremos agora onde tal efeito mais se camufla no dia-a-dia, nas vozes mais ruidosas ou mais vazias que costumamos ouvir a todo o momento e instante.
Vós já percebestes como, em muitas reuniões, debates ou até jantares em família, ou entre amigos, quem fala mais alto, quem sempre se altera nem sempre sabe do que fala, sabe do que realmente está em causa ou qual, de fato, é a verdade real dos fatos.
A sala / espaço de discussão se enche de opiniões, certezas, diagnósticos. E quase sempre, aquele que levanta a voz é o que menos estudou, menos refletiu, menos duvidou.
Ele(a) é todo(a) uma intransponível e rochosa cordilheira de dogmas, sofismas e convicções.
É o Efeito Dunning-Kruger em ação e no seu mais irradiante esplendor.
A pessoa que sabe pouco não tem como perceber o quanto sabe pouco.
Falta a ela, justamente, a habilidade de reconhecer sua ignorância.
E como não vê seus próprios equívocos, ela acredita que está certa, que tem razão e que são os outros que nada entendem.
Enquanto isso, os mais preparados hesitam, sopesam cada palavra, sabem que o mundo é complexo demais para respostas fáceis, e por isso silenciam – alguns resolvem escrever em solipsista condição, qual missão de vida que, às tantas, emerge como que por graça do espírito santo…
Na prática, isso significa que, a mor das vezes, somos guiados pelos mais autoconfiantes, teimosos, ignorantes e soberbos, não pelos mais competentes.
Que seguimos conselhos de quem grita mais, não de quem pensa melhor, intui, enxerga mais longe, antecipa e alerta para o equívoco…
E, assim, a ignorância atrevida e audaciosa domina espaços que deveriam ser ocupados pela sabedoria discreta.
O resultado?
Milhões de ruidosas vozes, mas poucas ideias.
Muita reverberação e achismo, pouca escuta e discernimento.
E uma perigosa ilusão: a de que saber é apenas parecer que sabe.
Enquanto os ignorantes se agarram, então, à certeza como quem segura uma boia em alto-mar, os verdadeiros sábios vivem submersos de perguntas.
A dúvida para eles não é uma fraqueza, é um farol.
Mas há um preço a pagar por enxergar com tamanha e altaneira clareza – a assombrosa constatação do fenomenal e colossal oceano…
E quanto mais sabeis, mais entendeis o quanto ainda falta aprender.
É como acender uma lanterna no escuro e perceber que a escuridão vai muito além do que imagináveis.
Este outro superveniente fenômeno tem nome: modéstia epistêmica.
A humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento.
Nunca tivemos tanto acesso à informação e nunca estivemos tão vulneráveis à desinformação, pois que o excesso de dados, sem estrutura, sem profundidade e sem substrato gera apenas uma ilusão de saber.
Mas há uma saída.
Um caminho possível entre a arrogância da ignorância e o silêncio da sabedoria.
E ele, como sempre, e para tudo, começa dentro de nós.
Existe um momento raro (porque, infelizmente, só a alguns acomete) e transformador na vida de uma pessoa.
Aquele em que ela percebe que tudo o que aprendeu a ter como verdade não passa de falácia/engodo e / ou que não sabia tanto quanto pensava.
Não é fácil chegar nesse ponto, mas tão logo alcançado é um ponto sem retorno.
Requer coragem para olhar no espelho e enxergar as máscaras, as rachaduras e os antolhos do próprio saber.
Esse momento é o início da metacognição – a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. De observar as certezas com relatividade, indagação e desconfiança até não restarem quaisquer respingos de dúvida.
A metacognição é o antídoto natural ao Efeito Dunning-Kruger. Ela não nos impede de errar, mas nos dá a chance de perceber o erro, de ajustar o curso, de mudar, de aprender e, por fim, vislumbrar a saída.
E como cultivá-la?
Primeiro, com humildade ativa. Saber que somos falhos não basta. É preciso querer saber e aprender, buscar ressonâncias, escutar mais do que falar.
Segundo, com curiosidade verdadeira. Não aquela que busca confirmar o que já acreditamos, mas a que se encanta com o desconhecido. A que pergunta, não para vencer um debate, mas para entender derradeiramente.
Terceiro, com exposição à diferença. Cercar-se apenas de vozes que pensam igual a nós é confortável e perigoso. O confronto respeitoso com outras visões é o que expande a consciência.
E por fim, com tempo de silêncio.
O mundo grita por respostas rápidas, mas sabedoria exige pausa.
Exige o espaço onde a dúvida possa respirar.
E assim se alicerçarão as bases para almejar o discernimento e sapiência que tanto escasseiam nos affairs mundanos e atemporais.
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as peças com intelecto, cognição e lucidez impoluta™
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