Estamos construindo uma ditadura do relativismo
que não reconhece nada como definitivo e cujo
objetivo final consiste unicamente no ego e nos
desejos de cada um.”
(Cardeal Ratzinger)
Se você, assim como eu, considera Machado de Assis um grande gênio, ou até mesmo um profeta o qual expressou, através de suas obras, os eventos cotidianos pelos quais a sociedade contemporânea conheceria, você faz parte do meu time.
Sim... Gênio. Eu até me atreveria a parar com a adjetivação do notório escritor, caso não me aprouvesse enfatizar, uma de suas obras que há mais de cem anos, nasceria a partir da pujante inquietação do personagem Simão Bacamarte, o renomado psiquiatra de Itaguaí; da obra: O Alienista.
Na época do meu contato com a obra, fui acometida por certa surpresa ao me deparar com o final inusitado: após trancafiar a cidade inteira no hospício, intitulado Casa Verde, ele acabou por trancar a si próprio, num ato quase que redentivo do seu próprio superego.
Creio que você, nobre leitor, ao se prontificar a despender minutos do seu precioso tempo para analisar comigo o Metaverso, deva estar se perguntando, qual a minha pretensão com a introdução acima. Dessa forma, peço um pouco da sua paciência para que juntos possamos construir algumas ideias.
A primeira vez que me deparei com o Metaverso, ou pelo menos a constatação do quanto ele pode ser, e de fato é, confuso e perigoso; foi no ano de 2003.
Na reunião de uma disciplina do meu curso de Mestrado, lembro-me da turma estar intensamente agitada e nervosa com a responsabilidade de apresentar trabalhos científicos. Eu, que não sabia bulhufas de “Power point”, já havia entregado a circunstância para Deus, e me sentado com os colegas no fundo da sala, aquela espécie de refúgio dos desprovidos das pompas acadêmicas.
Foi quando aquele rapaz se apresentou lá na frente da sala. Sua postura era simples, porém manifestava segurança e convicção nos gestos e palavras, se dirigindo ao professor com certo ímpeto. O tema não poderia ser mais propício para que nossas atenções se voltassem completamente para o estudante: A análise espectral.
Na hora me lembrei dos “Caças fantasmas”. Já imaginei o Pitty, o Geleia e a Janine numa superaventura. Sim, a minha ignorância me permitia apenas pensar em algo como espectro, por isso tal associação.
Embora eu estivesse errada, a lógica da análise não fugia muito do meu “feeling”. Em suma, a análise espectral diz respeito a analisar a “alma” das substâncias químicas.
Estávamos com os olhos fitados naquela apresentação. Acreditávamos estar diante de um “nerd” maluco que falaria coisas jamais dantes ouvidas por nós, meros mortais. De fato, grande parte do que ele falou entrou por um ouvido e saiu pelo outro, mas foi o suficiente para nos prender a ponto de presenciarmos cenas extremamente hilárias: ao encerrar a apresentação de um slide, o rapaz dava a instrução para “ninguém” passar para outro slide. Assim, ele dizia:
-Próximo! E como se não fosse o suficiente, ainda aguardava por alguns segundos até o momento em que ele mesmo se dirigia ao computador para avançar o slide.
A princípio, pensávamos ter entendido errado. Entretanto, à medida que a apresentação avançava, mais engraçada ela se tornava, o que a certo ponto, já arrancava gargalhadas do meu grupo. Devo confessar que o evento foi tema de muitas risadas posteriores, nas famosas conversas de barzinhos.
Bem, eu sei que você deve estar rindo imaginando a cena, mas voltando ao tema inicial, no qual pretendo tratar do Metaverso, este caso serviu para exemplificar em como a projeção de uma ideia ou de um conceito no universo virtual ou subjetivo, não encontra limites palpáveis para ser balizado, seja pelo caráter absurdo e duvidoso, seja pela não materialidade das proposições.
Assim, este ambiente particularmente “sem lei” pode manifestar-se dentre muitas formas, com certa inquestionabilidade, em virtude do constrangimento social; o que acaba refletindo em aspectos estruturais do pensamento e validação do comportamento humano.
Montesquieu (1689- 1755) político e filósofo francês ao escrever a obra: “O espírito das Leis” atribui às regras ou às leis, um papel fundamental na preservação e sobrevivência do homem como espécie e afirma: “pensaria na conservação de seu ser, antes de buscar a origem desse ser”. De fato, o ser humano enquanto alvo de constante desenvolvimento e, entenda-se desenvolvimento como transformar-se (âmbitos pessoais, sociais, tecnológicos e científicos) e amadurecer; necessita de uma validação adquirida através das interações humanas, condição há muito já descrita pela neurociência e filosofia.
O ato de amadurecer por sua vez significa permitir a auto percepção da ambivalência e da ambiguidade que toda personalidade carrega em si, além da incoerência que muitas vezes carregamos em nosso agir e pensar. Portanto, qualquer posicionamento extremamente rígido, moralista e puritano como aqueles adotados pelos “politicamente corretos” denota certa infantilidade utópica típica de adultos desajustados ou adolescentes.
Adolescentes são rígidos, moralistas e puritanos, embora neguem. Os puritanos acreditam que possuem teorias precisas sobre os porquês das coisas.
Ao que parece, quando interagimos em um mundo utópico como aquele construído no Metaverso, o qual representa as aspirações pueris das pessoas desprovidas de uma real interação com personalidades maduras e experientes, estamos permitindo que se desenvolvam tipos de personalidade às quais, em um ambiente desprovido de limites cognitivos, estão sujeitas a expressarem as maiores bizarrices como as observadas no momento presente.
Personalidades estas, as quais acreditam que a realidade é construída a partir da ideia e não a ideia é construída a partir da realidade. Assim, cenas como: seres humanos andando em quatro apoios com focinheira e coleira, enquanto caminham e latem conduzidos por outras pessoas, ferem todos os limites lógicos, cognitivos e honrados pertinentes a qualquer ser humano. Entretanto, por ser concebido por uma mente que transita livremente em um universo utópico e irreal, o Metaverso; a dimensão palpável do correto se dissipa. Infelizmente, este é apenas um exemplo. Pessoas se casando com objetos, admitindo ser coisas ou animais, têm sido frequentes na atualidade.
Simão Bacamarte ficaria perplexo com as cenas produzidas após cento e quarenta anos dos seus feitos. Machado de Assis, em suas obras, produzira um Metaverso rico em análises as quais nos direcionariam a entender as fragilidades humanas nas suas relações interpessoais.
Após a globalização, do estímulo do consumismo desenfreado, da competição em todas as suas formas, das relações facilitadas e possíveis nos quatro cantos do planeta e, do avanço das tecnologias facilitadoras, o que tem de fato nos faltado, a ponto de buscarmos a fuga para um ambiente completamente irreal e desconexo?
Bem, esta resposta eu não tenho, mas, embora já tenha se passado cento e quarenta anos, concluo que Simão Bacamarte, se internou cedo demais.