Martin Eden, criatura rude e achavascada por força das circunstâncias em que nasceu e cresceu, é um jovem marinheiro / estivador que na sequência de um, claro está, despretensioso e inescapável efeito-borboleta (comumente conhecido pela expressão “obra do acaso ou capricho do destino”), se vê arrebatadoramente apaixonado por Ruth, irmã de um amigo que ele, entretanto, havia salvo duma morte certa durante uma violenta rixa. Logo perceberia, contudo, que o objeto de enlevo pertencia a um “outro mundo”. À alta sociedade. Mas, ainda que lhe parecesse que ela fosse inalcançável à primeira vista, por sua própria conta e risco decide, a partir dali, passar a ser um novo homem - tornar-se um “intelectual” de modo a poder ascender socialmente para, assim, e na sua firme convicção, reunir as condições para aspirar a se casar com ela.
Dotado, caprichosamente, de enorme curiosidade pelo saber em geral (que identificava ser parte de uma existência superior a qual pertencia Ruth) chega a estudar 19 horas por dia. Depois de já ter acumulado um nível extraordinário de conhecimentos, Martin passa a escrever contos e romances que manda para as editoras e revistas literárias, mas que sempre vão sendo invariavelmente ignorados e rejeitados. Passa, em concomitância, a enfrentar a incompreensão da família e amigos, e até da própria amada com quem, por intermédio do irmão, começara a conviver com assídua frequência. Às tantas, e dela já estar ciente dos sentimentos de Martin, de haver reciprocidade até, mas sempre tido e visto como algo proibitivo e impossível quer no seio da família de Ruth quer em seu próprio íntimo por conta das convenções sociais e abissais diferenças de mundos entre ambos, Ruth chega a manifestar-lhe que gostaria que ele se dedicasse antes a uma carreira tradicional, sugerindo-lhe que tentasse ser advogado. Vislumbrava aí a única chance de ambos puderem ficar juntos...
Intrépido e mantendo ainda, e só ele, uma fé inabalável em seu desiderato, Martin vê-se, no entanto, obrigado a interromper seu “fito intelectualizante” quando percebe que já não tem mais dinheiro. Por força das circunstâncias vê-se compelido a se empregar numa lavanderia. Nesta, o regime de trabalho passa a ser opressivo e estafante o que leva Martin a vacilar, a titubear e a sentir, pela primeira vez, a inutilidade daquele seu projeto de vida em torno dos livros. Entrega-se, por certo tempo, à bebida. Reage, todavia, reergue-se, decide sair daquela servidão e volta a escrever. Para sobreviver começa a escrever, também, folhetins e literatura barata para vender a revistas populares. Sua brutal força de vontade fá-lo persistir em seu objetivo, mas, a dado momento, passa a sentir um visceral desânimo advindo da falta de compreensão e apoio de Ruth. Percebe que o meio em que ela vive é repleto de convencionalismos pífios e falsos, de exclusiva preocupação com as aparências e fetiches materiais e, à semelhança do que sempre vira nos meios mais paupérrimos e desfavorecidos da sociedade, chocantemente vazia de vida intelectual e espiritualizada.
Martin é, pois, abalroado pela segunda bigorna do real. Passa a não conseguir se conciliar com tal modo de vida. Passa, no fundo, a se enxergar como um espírito livre e percebe que seus estudos o elevaram intelectualmente acima, bem acima, inclusive, daquela casta burguesa a que Ruth pertencia e que passa a classificar de medíocre. Chega o inevitável momento (em face dos projetos teimosamente não acolhidos, engavetados e irrealizáveis aos olhos alheios, da falta de meios materiais próprios e do ranço manifesto desde as primeiras impressões) em que os pais de Ruth a obrigam a romper qualquer relacionamento com ele. Martin fica arrasado com tal decisão, com a incompreensão em relação às suas legítimas convicções e aspirações, e ainda mais por ver centralizada na sua amada todo um snobismo, soberba e superficialidade elitista que passou, desde então, a ojerizar.
Já a solo, persistindo, e em mais uma tentativa para ver publicados seus trabalhos, finalmente, o milagre ocorre. De repente, da noite pró dia, ele se torna um caso de sucesso de publico e crítica, e todos passam a querer adquirir seus escritos. Mas tal “sucesso” se transforma em mais uma frustração para ele que qualquer outra coisa. Percebe afinal que o público é insaciável e que se mostra ávido de alguma próxima novidade esquecendo rapidamente a obra já feita; Que os críticos são incapazes de entendê-lo e alcançá-lo na plenitude, e que, constantemente, mal o interpretam; E que todo o frenesim em torno da sua obra literária, na qual ele havia posto toda a sua alma, coragem e amor, não passara de um mero aproveitamento feroz que a indústria cultural “oferecia e propiciava” em jeito de modismo ao grande público. As portas da alta sociedade, entretanto, se abriram para ele. Sua família, que antes o chamava de vagabundo e parasita por não procurar um emprego, passa a adulá-lo. Os nababos que o desprezavam passam a convidá-lo para jantares e para ingressar em clubes privados. Ruth tenta reatar o relacionamento, agora que ele conta com a aprovação de todos, mas é Martin que agora já não a quer...
O mundo exterior passa a vê-lo como um vencedor. Martin, finalmente, consegue ascender na escala social por seu próprio esforço e mérito, tornando-se rico e prestigiado, mas para ele, depois de tanto esforço, sofrimento e decepção, tal ponto e tal fama passam a não ter mais sentido algum. A vida intelectual e a pureza de sentimentos que ele imaginava existir nas esferas superiores não passavam de miragens. O amor que sentia por aquele ser idealizado e que só existia em sua imaginação não resistiu à prova da realidade...
Martin tenta se reaproximar dos velhos amigos da classe operária, mas um abismo se interpõe entre eles devido ao fosso intelectual, entretanto, criado. Em catadupa passa a perder, então, todo o entusiasmo em continuar escrevendo e sua vida se torna um tremendo vazio. E o violento tédio que se apossa de sua existência o leva a desistir de tudo e de todos culminando num trágico fim...
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Acabaram de se deparar com a resenha do romance extraordinário de Jack London cuja capa ostenta a titulação que consta no topo deste artigo e laureia o nome da personagem central.
Uma denuncia eloquente à falta de apoio de quem nos é mais próximo e chegado, à falta de crença nas potencialidades alheias, à exasperante castração de oportunidades, ao preconceito, à indústria cultural e de entretenimento, às modinhas, à estultícia e burrice pandêmica e às falsas convenções.
O livro inteiro é uma reflexão sobre a desilusão em torno dos ideais, sobre a estratificação entre a hegemonia corporativa, o trabalho intelectual e o manual, sobre a busca de valores verdadeiros em uma sociedade sem escrúpulos, preconceituosa, ególatra, interesseira, acéfala, manipulada, histriônica e esquizofrênica, e sobre a solidão e incompreensão sofrida pelos que não se submetem ao mastodôntico e invencível sistema, à insanidade e à mediocridade enraizada.
Longe estava eu de imaginar, aquando da leitura da obra (que desde logo, até hoje e para todo o sempre tomou de assalto o pinacular posto de minhas predileções literárias, e em cuja apaixonante personagem já então me revia), que duas décadas mais tarde viria a ser acometido da síndrome de Martin Eden expressa num vívido e intrínseco sentimento extraído da narrativa autobiográfica criada por London que em mim, de forma plasmática, encarnou, ganhou vida e substrato...
Oremos por um desfecho diferente...
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as Peças com Intelecto, Lucidez e Cognição Impoluta