Mário Ferreira dos Santos (1907 – 1968) foi um dos poucos estudiosos no Brasil que podem realmente ser chamados de filósofos e não de meros professores de filosofia ou história da filosofia, isso porque nunca se limitou a ruminar os pensamentos alheios (a tal da filosofia bovina), muito pelo contrário, foi capaz de construir uma linha própria coerente e sólida.
O egrégio Olavo de Carvalho viria a suceder-lhe no trono e a colocar a bitola em patamares quase impossíveis de replicar – tema e ode para uma outra coluna…
O homenageado da vez foi, pois, um filósofo brasileiro conhecido por desenvolver a “Filosofia Concreta”, cujos principais tópicos de estudo incluem a filosofia como ciência rigorosa, a análise do cristianismo como ele deverá ser enxergado - desapegado ou linkado com o catolicismo e derradeiramente com o judaísmo -, a crítica à sociedade moderna e a busca por um sistema filosófico que engloba a totalidade do ser, esquematizados do seguinte modo:
Filosofia Concreta
Um sistema filosófico que buscou demonstrar a verdade de forma rigorosa e científica, utilizando o método das demonstrações geométricas.
Filosofia como Ciência
Baseando-se em demonstrações plasmadas na realidade e não em meras opiniões, abstrações ou especulações.
Crítica à Sociedade Moderna
Porque deveras tendenciosa na glamorização do criminoso / pusilânime e na humilhação do homem honesto e de bem.
Análise do Cristianismo
Sob a perspectiva da filosofia buscando compreender seus fundamentos e sua importância para a cultura e a sociedade.
Decadialética
Uma abordagem filosófica que passou a examinar a realidade sob dez aspectos diferentes, como sujeito-objeto, virtualidade, e intensidade / extensividade.
Interpretação de Nietzsche
Liberando Nietzsche das interpretações / associações nazistas que se faziam na época, destacando a importância de seu pensamento, sobretudo, clarividenciando que o pulo do gato está no potencial individual…
Infelizmente, em meio à barbárie que toma conta inclusive dos meios considerados cultos ou acadêmicos, um pensador deste quilate, incrustado qual um diamante raro neste solo tupiniquim, passou por um ignominioso ostracismo no qual muitas pessoas sequer sabem de quem se trata.
Para amenizar tamanho descalabro visa-se aqui contribuir, ainda que muito singelamente, trazendo neste texto uma abordagem pontual do referido autor a respeito da visão social, cultural e, consequentemente, jurídico-criminológica do delinquente.
Este é, aliás, um dos pontos em que se pode aquilatar a grandeza da obra de Mário Ferreira dos Santos, pois que, escrita em outros tempos, permanece atual. Mais que isso, se atualiza cada vez mais, o que é típico dos grandes pensadores, das grandes obras, ou seja, sua perpétua atualidade, enquanto que os medíocres só reproduzem o que é passageiro, modismos e maneirismos mesmo no campo intelectual.
No que diz respeito à figura do criminoso em latu sensu e sua abordagem na sociedade moderna, Mário Ferreira dos Santos discernia às tantas:
“Verifica-se no Ocidente, depois do que sucedeu em épocas passadas, que voltamos, agora, principalmente, os olhos para o criminoso. A lesão em si torna-se secundária, e o objeto da lesão também. Uma benevolência crescente vai cercando o criminoso, e há tendência para considerá-lo apenas um injustiçado, vítima social e / ou doente mental. Como a ideia de liberdade foi falsificada, como os que falam nela pouco dela entendem e menos ainda entendem os que a combatem, como a confusão é reinante neste setor, como se tende a transformar o homem apenas num feixe de reflexos, numa coisa que reage a outras coisas, e não num ser que dispõe de inteligência e de vontade, essas últimas, reduzidas até a meros reflexos e nada mais, a benevolência quanto ao criminoso cresceu além dos limites justos, porque, realmente, havia, em nossos antepassados, uma visão exagerada em relação ao criminoso, a ponto de as penas serem desproporcionadas à lesão do crime. Ora, nem tanto à terra nem tanto ao mar. Se uma acentuada benevolência, dentro de limites justos, se impunha, não havia necessidade de cair de um excesso a outro excesso. Hoje há uma tendência viciosa para tornar o criminoso mais numa vítima do que num responsável. E isso só tem servido para estimular o crime. O crime multiplicou-se e atingiu índices apavorantes. Já há quem pergunte se a sociedade humana, dentro de alguns decênios, não contará só com delinquentes e loucos, cujo número cresce em proporções avassaladoras. O número dos que se salvam diminui assustadoramente, apesar da repressão policial e de toda a propaganda dos amigos dos criminosos, dos que postulam penas cada vez mais suaves, se não terminarem alguns por pedir estátuas aos criminosos, como já se tentou erguer a um criminoso, que habilmente abalou muitas consciências. Não se pense que defendemos excessos. Queremos sempre permanecer no meio justo e bom, conforme a grande máxima pitagórica. E bom aqui é o justo, o conveniente, visto com prudência e moderação, porque deve haver até moderação na benevolência. A magnanimidade e a clemência pertencem à moderação, sim, mas exigem a justiça, a prudência e a coragem para que não se tornem viciosas. A magnanimidade e a clemência têm de se manifestar contidas na justiça, de modo a nunca ofendê-la. Impõe-se abandonar a demagogia com os criminosos. Eles precisam do nosso auxílio, sem dúvida, mas o que é mister, do lado da sociedade, é que não estimulemos a sua multiplicação. Que adiantaria lutar para salvarmos os que sofrem de uma determinada doença se nos afanarmos ainda em propagá-la?”
Tudo isto descrito e antevisto na metade do século passado – vide o estado atual das coisas…
Não é de hoje e não é somente em terras tupiniquins (embora por aqui a conjuntura ganhe contornos bisonhos e inaceitáveis, e, pasme-se, sejam por eles, pelos próprios ímpios, governada e gerenciada) que a glamorização do criminoso, do coitadinho, do rebelde e do violento – e de qualquer outra coisa não natural ou à margem da essência e decência – passou a ser operada por intelectuais, pelos operadores do direito (danação) e pelo mundo da arte / entretenimento.
“É preciso (alertava ainda o pensador) não permitir que um movimento pendular de extremos se produza ou prossiga. Agora vemos um extremo de benevolência e, pior que isso, de glamorização, de valorização, de exposição midiática do criminoso como se um astro fosse. Ao mesmo tempo vemos um desprezo pelo homem trabalhador, honesto, por aquele que cumpre com seus deveres e que obedece às leis. Essa mistura é explosiva, inclusive para a criação de um clima propício para que o pêndulo se mova para o outro extremo vicioso”.
Eis a advertência prudente de Mário Ferreira dos Santos quando clamava por um equilíbrio virtuoso:
“A barbárie pode se manifestar tanto na extrema tolerância com o vício, como na extrema intolerância com este”.
Quando a obra de um único autor é mais rica e poderosa que a cultura inteira do seu país (Olavo de Carvalho e sua colossal obra viria a exponenciar esta vívida concretude), das duas uma: ou o país consente em aprender com ele ou recusa o presente dos céus e inflige a si próprio o merecido castigo pelo pecado da soberba, condenando-se ao definhamento intelectual e a todo o cortejo de misérias morais que necessariamente o acompanham.
Eis o Brasil (e quase o restante do mundo) hodierno…
Mário Ferreira ocupa no Brasil uma posição similar à de alguns outros portentos injustiçados: um gênio universal perdido num ambiente provinciano incapaz não só de compreendê-lo, mas de enxergá-lo, fazendo dele, inclusive, uma espécie de monstro non grato – a atroz, cega e burra ojeriza à potência que viria a recair sobre Olavo de Carvalho…
Quem, num ambiente intelectual prisioneiro da dissonância cognitiva, do imediatismo mais mesquinho e do materialismo mais deprimente poderia suspeitar que, num escritório modesto da Vila Olímpia, em São Paulo, na verdade uma passagem repleta de livros entre a cozinha e a sala de visitas, um desconhecido discutia em pé de igualdade com os grandes filósofos de todas as épocas, demolia com meticulosidade cruel as escolas de pensamento mais em moda e sobre seus escombros erigia um novo padrão de inteligibilidade universal?…
Os problemas que Mário Ferreira dos Santos enfrentou foram os mais altos e complexos da filosofia, mas, por isso mesmo, estão tão acima das cogitações banais da nossa intelectualidade que esta não poderia defrontar-se com ele sem passar por uma metanoia, uma conversão do espírito, a descoberta de uma dimensão ignorada e infinita…
Foi talvez a premonição inconsciente do terror e do espanto que a impeliu a fugir dessa experiência, buscando abrigo nas suas miudezas usuais e definhando pouco a pouco, até chegar à nulidade completa atual.
A desproporção entre o filósofo aqui evidenciado e os seus contemporâneos – muito superiores, no entanto, à atual geração – é abissal.
A obra escrita do homenageado reflete três etapas distintas no seu desenvolvimento intelectual, das quais a primeira não deixa prever em nada as duas subsequentes, e a terceira, comparada à segunda, é um salto tão formidável na escala dos graus de abstração que aí parecemos nos defrontar já não com um filósofo em luta com suas incertezas e sim com um profeta legislador a enunciar leis reveladas ante as quais a capacidade humana de discutir tem de ceder à autoridade da evidência universal.
A sua Filosofia Concreta foi construída, geometricamente, como uma sequência de afirmações auto-evidentes e de conclusões exaustivamente fundadas nelas – uma ambiciosa e bem-sucedida tentativa de descrever a estrutura geral da realidade tal como tem de ser concebida necessariamente para que as afirmações da ciência façam sentido.
Ele denominou a sua filosofia “positiva”, mas não no sentido Comteano. O objetivo da filosofia “positiva” de Mário Ferreira é buscar aquilo que legitimamente se pode afirmar sobre o conjunto da realidade à luz do que foi investigado pelos filósofos ao longo de vinte e quatro séculos. Por baixo das diferenças entre escolas e correntes de pensamento, ele discerniu uma infinidade de pontos de convergência onde todos estiveram de acordo, mesmo sem declará-lo, e ao mesmo tempo vai construindo e sintetizando os métodos de demonstração necessários a fundamentá-los sob todos os ângulos concebíveis. Daí que a filosofia positiva seja também “concreta”…
“Um conhecimento concreto (enfatizava ele) é um conhecimento circular que conexiona tudo quanto pertence ao objeto estudado, desde a sua definição geral até os fatores que determinam a sua entrada e saída da existência, a sua inserção em totalidades maiores, o seu posto na ordem dos conhecimentos, etc… Por isso é que, à sequência de demonstrações geométricas, se articula um conjunto de investigações dialéticas, de modo que aquilo que foi obtido na esfera da alta abstração seja reencontrado no âmbito da experiência mais singular e imediata”.
A subida e descida entre os dois planos (abstração versus percepção direta do real) operar-se-á, de acordo com seu método, por meio da decadialética, que enfoca o seu objeto sob dez aspectos. Deixo-vos com os três que considero primordiais:
Campo sujeito-objeto. Todo e qualquer ser, seja físico, espiritual, existente, inexistente, hipotético, individual, universal, etc..., é simultaneamente objeto e sujeito, o que é o mesmo que dizer – em termos que não são os usados pelo autor – receptor e emissor de informações. Se tomarmos o objeto mais alto e universal – Deus –, Ele é evidentemente Sujeito, e só Sujeito, ontologicamente: gerando todos os processos, não é objeto de nenhum. No entanto, para nós, Ele é Objeto dos nossos pensamentos. Deus, que ontologicamente é Puro Sujeito, pode ser objeto do ponto de vista cognitivo. No outro extremo, um objeto inerte, como uma pedra, parece ser puro objeto sem nada de sujeito. No entanto, é óbvio que ela está em algum lugar e emite aos objetos circundantes alguma informação sobre a sua presença, por exemplo, o peso com que ela repousa sobre outra pedra. Com uma imensa gradação de diferenciações, cada ente pode ser precisamente descrito nas suas respectivas funções de sujeito e objeto. Conhecer um ente é, em primeiro lugar, saber a diferenciação e a articulação dessas funções.
Campo da atualidade e virtualidade. Dado um ente qualquer, pode-se distinguir entre o que ele é efetivamente, num certo momento, e aquilo em que ele pode (ou não) se transformar no instante seguinte. Alguns entes abstratos, como por exemplo, a liberdade ou a justiça, podem se transformar nos seus contrários (como a história e a atualidade o comprova a todo o tempo). Mas, por exemplo, um gato não poderá se transformar num anti-gato.
Campo das oposições da razão: conhecimento e desconhecimento. Se a razão fornece o conhecimento do geral e a intuição o do particular, em ambos os casos há uma seleção: conhecer é também desconhecer. Todos os dualismos da razão – concreto-abstrato, objetividade-subjetividade, finito-infinito, etc... – procedem da articulação entre conhecer e desconhecer. Não se conhece um objeto enquanto não se sabe o que tem de ser desconhecido para que ele se torne conhecido.
Num outro livro, “Pitágoras e o Tema do Número”, um dos mais importantes do autor, ele dá mais um testemunho da sua magistralidade.
Nele, o sábio chama a atenção para o fato de que, na tradição pitagórico-platônica, os números não eram encarados como meras quantidades, no sentido em que são usados nas medições, cálculos, etc…, mas sim como formas, isto é, articulações lógicas de relações possíveis.
O que Pitágoras queria dizer com sua famosa afirmação de que “tudo são números” não é que todas as qualidades diferenciadoras podiam se reduzir a quantidades, mas que as quantidades mesmas eram por assim dizer qualitativas: cada uma delas expressava um certo tipo de articulação de tensões cujo conjunto formava um objeto – temos aqui, mesmo que o louvado autor, quiçá, não o tivesse intuído ou consciencializando o liame, um dos princípios basilares da mecânica quântica (a linguagem pela qual Deus Se Expressa e Manifesta) tão cara a este errante e andarilho aprendiz que vos escreve, mecânica quântica, essa, que plasma e é laureada em Pompa & Circunstância e Dzáit-Gáist (duas de minhas três seminais e diamantinas obras).
“Mas, se de fato é assim, disse o iluminado às tantas, a sequência dos números inteiros não é apenas uma contagem, mas uma série ordenada de categorias lógicas. Contar é, mesmo inconscientemente, galgar os degraus de uma compreensão progressiva da estrutura do real. A mera contagem exprime, sinteticamente, o conjunto das determinações internas e externas que compõem qualquer objeto material ou espiritual, atual ou possível, real ou irreal. Os números são, portanto, “leis” que expressam a estrutura da realidade”.
Tivesse sido uma descoberta ou uma redescoberta, a filosofia de Mário Ferreira dos Santos descerra diante dos nossos olhos, de maneira diferenciada e meticulosamente acabada, um edifício doutrinal inteiro que, em Pitágoras – e mesmo em Platão – estava apenas embutido de maneira compacta e obscura.
Para finalizar, e ainda vos trazendo Olavo de Carvalho para me acompanhar no presente tributo, este, ao falar da sumidade do aqui panegírico, às tantas soltou o seguinte desabafo de indignação:
“O que está em jogo não é o futuro de Mário Ferreira dos Santos. É o futuro de um país que a ele não deu nada, nem mesmo um reconhecimento da boca para fora, mas ao qual ele pode dar uma nova vida no espírito”…
Mal sabendo que tal vindicação viria a ser uma auto-realização de profecias elevada à potência que se abateria e aplacaria sobre si próprio…
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as peças com intelecto, lucidez & cognição impoluta™
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