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Terça-feira, 05 de Maio 2026
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Jornalismo ou militância? Quando a imprensa troca a verdade pela conveniência

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Jornalismo ou militância? Quando a imprensa troca a verdade pela conveniência
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Há momentos em que o jornalismo precisa encarar o espelho — e talvez este seja um deles. Nos últimos anos, especialmente após as eleições de 2018 e logo em 2019, a imprensa brasileira deixou de lado sua vocação clássica de fiscal do poder e assumiu, sem pudor, o papel de porta-voz da conveniência ideológica. Não falo de erros pontuais, comuns em qualquer redação sob pressão, mas de uma linha editorial sistemática, onde fatos são dobrados ao gosto de narrativas dominantes. Quem denuncia isso não são apenas vozes isoladas nas redes sociais, mas jornalistas experientes, como Karina Michelin, correspondente na Itália, que recentemente afirmou: "Mentir para agradar o poder não faz de vocês jornalistas — faz de vocês cúmplices."

Não é a única nem a primeira a afirmar isso. Michelin se referia especificamente à cobertura dos depoimentos de Mauro Cid à CPMI, onde o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro negou participação em qualquer tentativa de golpe, afirmou não ter visto documentos conspiratórios e destacou que as conversas a que teve acesso se restringiam a "insatisfações vagas". Contudo, no dia seguinte, as manchetes já estampavam frases como “Cid confirma tentativa de golpe”. O que deveria ser uma reportagem factual transformou-se em espetáculo de confirmação. O jornalismo deixou de observar para intervir — e o fez com convicção, não por engano. Michelin foi enfática: “Foi uma distorção por convicção.” E realmente foi.

Esse padrão não é novo. Em 2019, a revista Crusoé publicaria uma reportagem revelando um e-mail da Odebrecht que citava o ministro Dias Toffoli como “o amigo do amigo do meu pai”. A matéria foi censurada por ordem direta de Alexandre de Moraes, num gesto escancarado de intimidação judicial. À época, a grande imprensa preferiu o silêncio — afinal, o alvo da reportagem estava “do lado certo”. A complacência com a censura, travestida de zelo democrático, abriu as portas para a normalização de medidas autoritárias.

Hoje, o arbítrio já não distingue entre aliados e adversários. Em abril de 2025, jornalistas da ESPN foram suspensos após criticarem a CBF, segundo revelou a revista Piauí. A emissora cedeu às pressões de uma entidade poderosa, num episódio que expôs o quanto o jornalismo esportivo — outrora terreno fértil para denúncia e irreverência — tornou-se vulnerável ao assédio corporativo. A maioria da imprensa silenciou. Vergonhosamente.

Outro episódio sintomático foi a reforma de uma sentença pelo STJ, revertendo uma decisão favorável à revista IstoÉ, que havia publicado uma reportagem crítica ao ministro Gilmar Mendes. O conteúdo é secundário diante do princípio: o direito de escrutinar o poder, mesmo o mais togado, é pilar do jornalismo. Quando esse direito se dobra, o resto é questão de tempo.

Mas nem mesmo jornalistas de esquerda escapam da guilhotina institucional. Uma repórter identificada ideologicamente com pautas progressistas foi condenada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul a pagar R$ 600 mil por divulgar informações que, embora verdadeiras, contrariavam interesses políticos. A perseguição não é mais seletiva: qualquer um que ouse desafiar a narrativa oficial é um alvo em potencial.

Voltando ao caso Mauro Cid, há outro aspecto preocupante que foi amplamente ignorado pelos grandes veículos: a condução da audiência por Alexandre de Moraes, que atuou como inquisidor, atropelando o art. 212 do Código de Processo Penal, que exige que perguntas sejam feitas pelas partes, não pelo juiz. Moraes, no entanto, assumiu simultaneamente os papéis de promotor, juiz e parte interessada. A imprensa? Calou-se, uma vez mais, para não atrapalhar o roteiro do “golpe iminente”, mesmo sem provas materiais de sua existência.

Essa passividade diante do poder, especialmente o Judiciário, que hoje acumula prerrogativas legislativas, executivas e punitivas, revela um jornalismo rendido. A imprensa brasileira parece ter trocado sua bússola ética por um GPS ideológico — e agora se perde na neblina que ela mesma ajudou a criar.

Karina Michelin resume bem: “Os jornalistas que preferirem ser agentes de narrativa em vez de cronistas da verdade não serão lembrados como profissionais da imprensa — mas como peças da farsa.” E há algo trágico nessa constatação, pois um jornalismo que se ajoelha diante do poder não apenas trai seus leitores — ele renuncia à própria razão de existir.

A história é implacável com os cúmplices. Os mesmos veículos que hoje colaboram com o arbítrio em nome de uma suposta “defesa da democracia” talvez sejam amanhã suas vítimas. Já começa a acontecer. O jornalista, quando deixa de ser desconfiado do poder para se tornar seu escudeiro, passa a fazer parte do problema que deveria denunciar. E o preço disso será cobrado — em credibilidade, em liberdade e, por fim, em relevância.

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