Com os olhos ainda fechados, Clara pôde ouvir o mussitar da sua avó, que mesmo no escuro do grande quarto, o qual abrigara anteriormente a família de seis pessoas, rezava em forma de choro; pedindo a Deus que trouxesse alguma solução a fim de pôr comida na mesa nos próximos dias.
Clara sentiu seu pequenino coração de seis anos queimar. Fingiu não ouvir a oração de sua avó, que diante do premente amanhecer, nem se deu ao trabalho de dormir.
Novamente Clara abriu seus olhos, agora não mais com o clamor, mas com o sacudir de sua avó, que de forma imperativa a chamava para tomar café.
O clima era de silêncio e tensão, os quais ela ao longo dos seus seis anos já estava acostumada. De fato, suas poucas lembranças boas diziam respeito à noite de Natal ao qual, seu pai vestido de Papai Noel trouxera o tão sonhado Janjão Baterista, o ursinho visto na tv preto e branco e que, movido por duas pilhas, tocava um bumbo; arrancando sorrisos e um evidente brilho dos seus olhos.
Clara estava triste e apreensiva.
Enquanto aguardava a progenitora terminar as trancinhas em seu longo cabelo “liso e escorrido”, forma como sempre ouvia sua avó se referir ao seu cabelo, além de reclamar da dificuldade em trançá-lo; a menina pensava no Natal que estava se aproximando.
Sua alma estava contrita. Ameaçou várias vezes dizer a sua avó que não se preocupasse com presentes afinal, com a escassez de trabalho por aqueles dias, o importante seria conseguirem comer.
Preferiu ficar em silêncio.
Embora não soubesse como ajudar, sentia que seu silêncio naquele momento já seria de grande valia.
Passando a mão em sua bolsa e colocando-a em seu ombro, a avó estendeu a mão a Clara convidando-a para saírem. A menina ainda sem saber o que fariam, logo entendeu que provavelmente andariam, e muito afinal, em milissegundos pôde escanear detalhadamente o ambiente; observando inclusive, que sua avó calçava a sua desgastada “Havainas”, o que de fato sinalizava a longa jornada vindoura.
Enquanto caminhavam, a pequena Clara ansiava por chegar aos arredores da estação Jabaquara. Sim, ela tinha um verdadeiro fascínio pelo metrô. E embora andassem cerca de cinco quilômetros até o destino almejado, a satisfação em ver os trens parados e os trilhos expostos em plena luz do dia, despertava na garota um certo frisson.
- Falta muito pra chegar vó?
- Sim. Respondeu, enquanto mantinha seu olhar fixo e determinado no trajeto a frente.
Após um longo período, finalmente chegariam ao local: a mercearia do Sr. João.
A menina que se distraía fácil, se encantou com algo logo na entrada do estabelecimento. Sua avó por sua vez, manteve-se decidida adentrando ao local.
Ao saciar a sua curiosidade, lembrou-se imediatamente do compromisso de se manter próxima a sua avó, o que fez com que se dirigisse também ao interior da mercearia; ainda em tempo de testemunhar o final da conversa com o amigo de longa data.
- Você conseguiria me vender fiado?
A resposta veio incisiva e sem rodeios.
- Não.
Ouvindo o veredito, se virou pegando na mão da neta e se dirigiu a saída.
O trajeto da volta parecia interminável. Aquele gélido silêncio a angustiava cada vez mais.
Queria poder ajudar, mas sua pouca idade só lhe permitia lavar a louça nas casas as quais sua avó eventualmente fazia faxina ou passava roupa. Pensando nisso, observou que sua avó desviara o caminho bem no trecho que mais amava: o metrô...
Percebeu que se dirigiam a casa da velha amiga Nilda.
Por um instante esqueceu da preocupação e ficou extremamente feliz. Lá poderia brincar com os netos gêmeos da matriarca.
E assim o fez. Enquanto sua avó passava roupa, trabalho oferecido imediatamente pela amiga após saber das dificuldades enfrentadas, pôde sentir momentos de paz e refrigério.
Ao receber o pagamento no final, a avó agradeceu sua generosa amiga com os olhos cheios de lágrima e gratidão.
Na volta para casa, parou no Yamato (mercado do bairro) para comprar moela de frango, o que contentou demais a menina, embora ela gostasse mesmo era do fígado de frango refogadinho e com o temperinho inigualável de sua avó.
Os dias passavam rápidos.
Com a maior proximidade do Natal, a preocupação voltava a assombrar a sua avó.
Embora a preocupação não se manifestasse por noites acordadas orando, a menina sabia que algo não ia bem...
Era uma tarde nublada.
A Rua Azor Silva que sempre estivera fervilhando de crianças com seus velotróis enlouquecidos, na íngreme descida, estava estranhamente em silêncio naquele dia.
E de fato, por obra do benevolente destino, essa ausência de pessoas foi de grande importância.
Clara, lavava louça quando ouviu a empolgante expressão de sua irmã que adentrava à pequenina casa localizada no fundo do grande terreno.
-Vó, olha o que eu achei!
A avó veio conferir o achado da garota com certa preocupação afinal, se tinha alguém que adorava aprontar, era aquela neta.
- Que isso?
- Não sei vó, mas o pessoal da oficina pôs pra fora...
A menina carregava uma peça grande de metal; até certo ponto pesada para o seu tamanho, o que necessitou de grande empenho físico por parte da garota de sete anos.
A avó que possuía uma postura muito austera, devido a exigente criação, tratou de investigar o fato. Afinal, o medo da menina ter se apossado de algo alheio lhe causou extrema preocupação e necessidade de averiguação.
- Onde você pegou isso?
A menina, já um pouco amedrontada, guiou sua avó até a porta da oficina localizada há duas casas de distância da sua.
Tocou a campainha apreensiva como quem esperasse o pior. O imenso portão fechado parecia julgá-la antes mesmo de conhecer a realidade dos fatos.
De repente um rapaz com um semblante bastante simpático colocou a cabeça para fora:
- Pois não?
- A minha neta pegou esta peça aqui da sua calçada. Você estava jogando fora mesmo?
- Sim. Eu coloco aqui pra quem quiser pegar.
A idosa muito intrigada não hesitou em perguntar:
- Mas o que é isso?
- São peças de carro amassadas que a gente substitui e depois não usa mais. A gente põe pra fora porque muita gente pega pra vender no ferro velho.
A avó se viu diante de uma oportunidade única.
- Ah é?
- E tem ferro velho aqui perto? Como funciona?
- Sim. Eles compram por peso. Você leva lá, eles pesam e te pagam na hora.
Neste momento não teve mais dúvida. Havia encontrado uma grande oportunidade de driblar a escassez de recursos naquele final de ano.
- Você poderia me avisar quando tiver peças para jogar fora? Perguntava visando escapar da concorrência da rua.
O rapaz vendo a sua expressão, entendeu que não se tratava de uma solicitação comum.
- A senhora mora onde?
- Ali na terceira casa! Disse enquanto apontava para o seu tímido portãozinho.
- Tá bom, pode deixar. Quando tiver peças, eu levo lá pra senhora.
A neta, a qual fizera a descoberta, estava exultante.
Restava agora levar a peça encontrada até o ferro velho e saber o quanto poderiam lucrar.
Clara ficou em casa enquanto sua avó e a irmã se dirigiram ao ferro velho, que ficava há três quarteirões dali.
De repente, sua irmã entrou aos gritos em casa.
- A gente conseguiu bastante dinheiro!
Clara sorriu aliviada. Deus estava olhando para elas.
As três festejaram muito naquele finalzinho de tarde. Mais uma vez poderiam abastecer temporariamente a geladeira.
Os dias se passaram.
A empolgação inicial já cedia espaço à preocupação.
- Vó, será que o rapaz vai mesmo trazer as peças quando tiver?
- Ele disse que sim. Respondeu a avó.
Certa de que poderia confiar na palavra do moço, afinal cresceu aprendendo que a palavra representava sobretudo a honra; a vivida senhora mantinha a convicção.
Os dias seguiam sem uma única notícia do jovem rapaz da oficina mecânica.
As meninas com seus espíritos inquietos, típico das crianças, estavam impacientes.
O Natal estava se aproximando. Queriam poder ter uma véspera digna.
Clara sonhava com a torta de abacaxi que só a sua avó sabia fazer. Ela fazia todo Natal. Não poderia permitir se subtrair do prazer de sentir aquele saborzinho “azedinho doce”.
- Fá...Vamos lá?
- Vamos! Respondeu a irmã.
Mais uma vez a cena se repetiu. Apreensivas esperaram para que o portão se abrisse.
Era a “Porta da Esperança” versão Vila Fachini.
De repente, a cabeça simpática do moço apareceu novamente.
- Oi!
- Moço, tem peça pra dar?
- Ah!!!! Tem sim! Eu tava esperando juntar bastante pra levar pra vocês.
As duas comemoraram dando pulinhos.
Falando isso, o rapaz começou a colocar as inúmeras e grandes peças amassadas para a calçada, ao mesmo tempo em que aguardava as meninas que se revezavam levando para dentro de sua casa.
Elas não se aguentavam de alegria. O canto do quintal ficou repleto de sucatas.
Se certificavam de que eram pesadas.
- Essas devem valer uma nota! Diziam enquanto sorriam de orelha a orelha...
De fato. As peças de tão grandes tiveram que esperar ao caminhão do ferro velho vir buscar.
Clara sabia que aquele Natal seria diferente. E não só o Natal, mas os meses que se seguiriam até o ingresso de um novo trabalho por “Dona Mary” como chamava carinhosamente a sua vozinha.
Agradeceu a Deus por isso.
Sentindo o contentamento da avó, ao saírem do ferro velho olhou para cima, avistando o homem de lata, construído com sucatas e que, pela ocasião, vestia um chapeuzinho de Papai Noel.
Aquele ano Deus havia mudado só um pouquinho o fenótipo do “bom velhinho”.
Não importava...
Mesmo com todas as dificuldades, em 1984 o espírito do Natal continuaria vivo em sua casa...
Créditos (Imagem de capa): Pixabay
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