E se a razão pela qual não nos lembramos de ter nascido, como nunca nos lembraremos, quando vier a acontecer, de haver morrido, não seja apenas uma incontornabilidade da vida, mas a chave para uma das verdades mais ocultas da existência.
E se o verdadeiro segredo da consciência não estivesse em nascer, morrer ou reencarnar, mas num deslocamento contínuo, um movimento silencioso através de camadas de realidade, tão perfeito que a mente faz por iludir, a cada chegada de nascimento e a cada partida de morte, sem fazer perceber que tais “pontos de entrada e saída” jamais são realmente vivenciados / sentidos.
E se o maior segredo não será que fenecemos e expiramos, mas que continuamos, sempre em movimento, sempre despertando, nunca perdido ou sem sentido, apenas nos transformando…
E se uma gnose que nos foi subtraída, de cujos escritos foram em grande parte soterrados pelo tempo e apagados pelos impérios e potestades que se sucederam e sucedem, sussurra que a consciência que agora olha através dos meus e dos vossos olhos nunca se extingue...
Que a morte não será um fim de linha, mas uma passagem...
Que a consciência se transferirá, de forma imperceptível, para outra realidade, outra ramificação ou braço do rio da existência...
Que o termo moderno “mudança de linha temporal” será apenas uma metáfora para tal idiossincrasia, prisma e viés...
Os gnósticos falavam de Éon: o tempo que não pode ser medido, pois que pertencerá aos vastos reinos da consciência, denunciando ainda o Demiurgo, o falso Deus, que crendo ser único e glorificado, construiu a prisão da matéria que é este nosso mundo físico / terreno.
Para eles, assim condicionalmente vistas as coisas, o ciclo de reencarnações não significaria progresso, mas esquecimento, numa espiral de repetições para manter o espírito adormecido.
Tal mensagem também ecoa no Corpus Hermeticum, quando Hermes Trismegisto bradou que “o Homem é mortal pelo corpo, mas imortal pela alma essencial”.
Plotinus, no século III, descreveu essa alma (a nossa) como algo que não nasce nem morre, apenas desce e ascende em diferentes níveis do ser.
Jung, milênios depois, dissertou em torno da centelha divina que sobrevive à morte psíquica; o self que atravessa os ciclos de transformação.
Mircea Eliade lembrava que os mitos da morte e renascimento serão, na verdade, ritos de passagem, momentos em que a consciência desperta para sua própria eternidade.
Mas voltemos ao condicional desvelo:
E se o que os místicos e sábios chamavam de gnose é esse saber direto, não uma crença, mas uma experiência íntima de que o eu observador é indestrutível.
De que a centelha é imortal ocupando avatares atrás de avatares elevados a ∞.
Hoje, interpretações da física teórica e quântica, ciências que tornam metáforas em hipóteses vívidas e confirmáveis, oferecem-nos visões metafóricas surpreendentes, como a dos muitos mundos e níveis de realidade.
O observador (eu, você, fulano e beltrano) parece decidir qual realidade se lhe manifesta.
Não se tratará aqui de provar literalmente a imortalidade, mas de reconhecer um paralelo simbólico: o da consciência como ponto fixo em meio a infinitas ramificações de possibilidades para exercer a vontade de existência única e perene.
Pergunte-se a si mesmo, então:
Quem é que está consciente agora?
E do que estarei consciente?
Deverei registrar sonhos, sincronicidades e intuições como ecos de outras realidades, interromper padrões automáticos, mudar um caminho habitual, silenciar-me para recordar que a realidade é maleável e que não serei mais do que um passageiro nela?…
E quando a angústia ou o medo baterem repita sem apelo nem agravo:
Sou o viajante, não a jornada, é ela que se encerra, não eu!
E se cada aparente final será apenas um portal para outra possibilidade;
Se a consciência nunca se apaga, então cada escolha importa mais do que imaginamos.
A verdadeira libertação não estará, então, em vãmente fugir da morte, mas em viver plenamente acordado, reconhecendo que somos o sonhador e o sonho, o observador e o observado.
Não temeis – vivei, pois, na confiança e na curiosidade, não na angústia e no medo que irrompem, por um lado, quando pensamos que não veremos mais quem amamos e estimamos quando eles se forem ou quando se vão e, por outro, quando egoicamente projetamos nossa própria finitude, que não mais estaremos com os nossos, aqui, com tudo o que há de bom, belo e prazeroso, e nesta vívida, pessoal e intransmissível experiência a cada nascimento e morte...
E se o segredo da imortalidade não seja apenas a promessa de que você não morre, mas a revelação de que nós somos seres eternos – viajantes infinitos que despertam de realidade em realidade sem jamais nos extinguirmos prototipicamente…
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as peças com intelecto, cognição e lucidez impoluta™
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