No país onde, como sabiamente definiu Roberto Campos, até o passado é incerto, os ditados populares — também chamados de provérbios — apesar da sabedoria envolvida em suas sentenças, em alguns casos perdem o sentido ou não correspondem à realidade. Ainda que essa realidade exija, antes de tudo, uma análise perspicaz de alguém que enxerga o que a maioria não vê.
O ano de 2025 vai se desenhando, até este final de abril, como um ano em que, para os brasileiros, a realidade é suplantada por expectativas e euforias produzidas pelas lideranças que comandam os dois polos do país. É importante ressaltar que não falo aqui de Lula e Bolsonaro, mas dos personagens que compõem a esquerda e a direita, a mídia mainstream e a mídia alternativa conservadora — e por aí vai. É também importante lembrar que, quando falamos desses dois grupos, falamos de modo geral; as exceções existem.
Ora, se por um lado temos a “turma do amor” já não escondendo mais seu descontentamento diante de tantas coisas injustificáveis — mas que antes eram justificadas até doer no bolso —, na outra ponta, a ausência de ações contundentes “Made in USA” e uma luta por justiça e anistia que não arrefece são alguns exemplos de como o mundo real reage diante das expectativas de realidades distintas.
Nesse cenário árido em alegria, prosperidade e felicidade — do cafezinho a preço de ouro às denúncias de abuso de poder e corrupção — surge um assunto que, com explicações variadas e contraditórias, toma conta de um pedaço do debate público.
Uns atribuíram a questão a uma aposta de uma multinacional em fazer lucro em ano de eleição. Outros enxergam um compromisso ainda maior dessa marca em trabalhar contra símbolos nacionais e, através de um soft power, romper com tradições. Há quem justifique (e defenda) a ação como uma homenagem à árvore símbolo do período colonial extrativista do homem branco europeu escravagista e do patriarcado (sim, os que estão defendendo a cor por causa do pau-brasil traçam os portugueses colonizadores mais ou menos assim... irônico, não?). E ainda tem os que veem aquilo que, na minha opinião, é o óbvio: uma demonstração de poder e uma tentativa de ruptura entre os símbolos nacionais e a direita.
Sim, estou falando da camisa vermelha da Seleção.
Pode parecer algo simples, bobo, menos importante — mas é muito maior do que a maioria das pessoas consegue ver e entender. Daria para fazer uma lista de tópicos e montar um diagrama enorme com tantos assuntos e desdobramentos que essa simples possibilidade de mudança de cor traz.
Mas o aspecto ao qual quero me ater aqui é o autocrítico. Logo após a notícia ser divulgada, pululavam nas redes sociais os comentários mais sintomáticos sobre a capacidade de parte da direita de entender o que está acontecendo.
Do “quero que a Seleção se dane”, “não ligo pra futebol”, “brasileiro só quer saber de futebol” e suas variações, há uma outra que considero ainda pior — mais sintomática sobre a incompreensão do momento que vivemos: “é cortina de fumaça para tirar o foco...”.
A incapacidade de compreender a doença faz o médico errar no diagnóstico e no tratamento. Quando o lugar comum assume o papel da crítica rasa, sem olhar com atenção devida aos reais problemas das situações que se apresentam, todos andam em círculos — produzindo lamúrias e aumentando a distância entre o entendimento profundo dos problemas e a percepção superficial do que apenas aparenta ser o problema.
Tomando os dois casos que mencionei como exemplo, no primeiro notamos a total falta de compreensão de que a guerra cultural se faz em todas as frentes — independente da sua preferência pessoal. A decisão individual pode — mais do que isso, deve — existir. Todavia, desprezar o tamanho e a importância do assunto diante da sociedade por conta de gosto pessoal é o maior e mais crasso erro nesse campo. “Se não gosto, não tem importância.” Quase uma síndrome de Luís XIV, o Rei Sol, onde tudo gira em torno do sujeito.
O segundo caso é ainda mais dramático. Afinal, ele revela uma total falta de compreensão da realidade brasileira. Não perceber que aqueles que detêm o poder já não estão mais na fase de esconder suas ações e seus propósitos, que não necessitam de “cortinas de fumaça” diante de mais um caso de corrupção, é, por lógica, não aceitar que estamos em um período de exceção — onde o ordenamento jurídico e moral flutua ao gosto de quem comanda.
E a prova disso é ver jornalistas da imprensa esportiva, onde a maioria tem viés progressista, revoltados com essa possibilidade. Aspecto interessante, porque temos exposta a hipocrisia de quem defende a ruptura de tradições e liberalidade para os outros ou para quando for conveniente a si mesmos. Todavia, quando atinge aquilo que se ama, que se admira e respeita, o velho e bom conservar é o sentimento inato até nesses corações.
Como disse anteriormente, é um assunto muito maior do que se imagina. E veja que nem falamos da profanação da história da seleção.
Créditos (Imagem de capa): Foto: Divulgação/Redes sociais