Não conseguis vislumbrar a gaiola que vos cabe porque ela não é feita de grades e / ou formas estanques, mas de obrigações / deveres formais:
Certidões de nascimento;
Números de identidade;
Números de previdência social;
Números de identificação fiscal;
Permissões para dirigir;
Carimbos de passaporte;
Boletins escolares / Diplomas universitários;
Certidões de casamento;
Cartões de vacinação / Passaportes sanitários;
Atestados mil;
Declarações mil;
Certidões de óbito…
Desde o momento em que saís do útero materno e entrais neste reino, até o momento em que desencarnareis, sois documentados, arquivados, catalogados, rastreados.
A cada contrato que assinais.
A cada termo de serviço que aceitais lido ou não lido.
A cada formulário de divulgação, renúncia, acordo e documento de consentimento — tudo registrado e monitorado.
Pilhas e pilhas de linguagem jurídica escrita para manietar, indexar, aprisionar…
Dezessete anos, ao menos (para quem fizer uma faculdade), de estudo compulsivo, doutrinado e programado numa escola e universidade, sem o qual pouca ou nenhuma porta do mercado se abrirá e a mínima independência financeira terá lugar.
Desses dezessete anos, e após uma enxurrada de avaliações e memorizações inócuas, contar-se-ão pelos dedos das mãos os conteúdos que de fato agregam ao desenvolvimento intelectual e cognitivo de um humano que se quer adulto, maturativo, informado (de fato), especializado e capacitado.
E o aprendiz de servo ideologizado e dogmatizado, entretanto, virará adulto e, sem apelo nem agravo, será lançado às feras numa senzala mais escalar e multifacetada.
Uma hipoteca – para a esmagadora maioria que não nasce em berço de ouro – que transformará o direito constitucional à moradia em 20, 30 ou 40 anos de usura, jurocracia e servidão³.
Um empréstimo estudantil que transformará a educação em décadas de dívida.
Um outro qualquer contrato de crédito que fará o dinheiro de amanhã custar, no mínimo, o dobro do de hoje.
Uma apólice de seguro que apostará contra a vossa própria vida / integridade física.
Um vínculo de trabalho contratual ou estatutário que surrupiará quase todas as vossas preciosas horas de vigília, por pelo menos, 30 anos da vossa vida.
Uma cláusula de não concorrência que controlará o que podeis fazer mesmo depois de sairdes.
Uma entidade corporativa — uma ficção jurídica com mais direitos do que vós próprios – imortal. Intocável. Protegida de quaisquer consequências enquanto vós sereis, pessoalmente, e em caso de algum incumprimento, responsabilizados por tudo.
Todo e qualquer regulamento exigirá toda uma sorte de licenças, permissões, certificações, registros.
Precisais de permissão para trabalhar.
Permissão para construir.
Permissão para circular.
Permissão para viajar.
Permissão para casar.
Permissão para vos divorciardes.
Permissão para morrerdes com dignidade.
E toda a permissão custa dinheiro.
Toda licença requer renovação.
Todo registro exige conformidade.
Pagais impostos quando auferires algo pelo teu labor, quando empreenderes, quando lucrares, quando adquirires insumos, quando (se for o caso) remunerares funcionários, quando gastardes, quando economizardes, quando venderdes, quando adquirirdes um veículo e circulardes com ele, quando adquirirdes um imóvel e, pasme-se, pelo usufruto, pagais ainda impostos, através de quem fica, quando morreis…
E se não pagais os onipresentes, vorazes e insaciáveis tributos virá, rasgando, o aviso de execução hipotecária de bens. A ordem de despejo. A penhora. O penhor. A apreensão…
E tudo executado com um golpe de caneta de pessoas que nunca vos conheceram ou conhecerão, que nunca viram ou verão vosso rosto, que nunca saberão vosso nome, biografia, vicissitudes…
Apenas só mais um número de processo.
Apenas só mais um incidente; Um arquivo.
Apenas e só mais um input no sistema.
Os estatutos. Os códigos. As portarias.
Dezenas de milhares de páginas de regras escritas em uma linguagem projetada para ser enfadonha, indesejável de ler e, muitas das vezes, incompreensível.
As letras miúdas. Sempre as letras miúdas. Os adendos, apêndices, cronogramas e anexos.
As cláusulas de arbitragem que vos vinculam a cada palavra.
Vós deveis concordar ou não podereis participar.
Não há opção de exclusão.
Não há alternativa.
Esta é a arquitetura do carcerígeno controle.
Não mais por exércitos. Por armas. Por muros, guardas ou correntes visíveis.
Apenas burocracia.
Apenas papel.
Apenas assinaturas.
Apenas vínculos.
Apenas acordos digitais que vós clicais sem ler, porque lê-los levaria uma vida inteira e, ainda assim, não os entenderíeis…
As estruturas invisíveis são as mais fortes.
Vós não podeis lutar contra o que não podeis ver.
Vós não podeis vos libertar de correntes que não percebeis que estais usando.
E tais estruturas só se mantêm porque as sustentamos com nossa obediência, nossa ignorância, nossa falta de conhecimento, nossas assinaturas, nossa outorga, nosso consentimento, nossa crença limitante de que “é assim que tem que ser e que é tudo para o nosso bem-estar social”…
Parai de assinar.
Parai de contratar.
Parai de adquirir.
Somente o imprescindível!
Parai de obedecer, sacro santamente, sem questionar ou quando não vos fizer qualquer sentido.
Parai de acreditar acriticamente.
A gaiola invisível se dissolve no momento em que vós a vedes como ela é:
Ficção. Controle. Ilusão.
Tudo o resto é servidão com, aqui e ali, fugazes e evanescentes momentos de felicidade / êxtase / sensação de liberdade...
Eco
Fonte/Créditos: Juntando as peças com intelecto, cognição e lucidez impoluta™
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