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Domingo, 03 de Maio 2026
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A EXALTAÇÃO DA FEIURA & DA BURRICE

Memórias & Retalhos dum Eco Inteligente e Não Replicante™

A EXALTAÇÃO DA FEIURA & DA BURRICE
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Nunca fomos tão expostos, tão vistos, tão contatáveis, tão conectados e, paradoxalmente, tão isolados, desorientados e caídos.

Tudo é virtual, imagem, fachada, oco, vazio…

Tudo é compra & venda, vendável, vendido, QR Code

Tudo é desempenho – menos de cognição, de lucidez, de discernimento, de ética e de consciência…

E cultua-se o que há de mais bizarro e estupidificante.

 

Neste cenário o fascínio pelo superficial, pelo horrendo, pela feiura, pelo banal, pelo ruído não é apenas uma falha cultural – é um sintoma.

Um sintoma de uma época que abandonou o silêncio e a reflexão para sucumbir ao excesso.

Excesso de informações, de estímulos, de condicionamento, de propaganda, de polarizações e cismas.

Excesso que gera cansaço, desânimo, exasperação, que sufoca a alma e embota a mente.

Mas as perguntas incômodas permanecem:

Por que tantas mentes, e muitas delas tão capazes e inteligentes, não descortinam quem, de fato, nos manipula, controla e subjuga?

Por que tantas, quase todas, se rendem a manipulações/distrações estupidificantes, repetitivas e sem substância?

As respostas exigem mais do que estupefação.

Exigem escuta.

Exigem análise.

É preciso entender o sintoma para chegar à causa, e, talvez, quem sabe, reencontrar um caminho de cura.

O mundo moderno é emocionalmente exaustivo, animalizado, reptiliano, esquizoide, histriônico e imbecilizante.

A ansiedade crônica, o medo do futuro, a precarização das relações e o bombardeio constante de dissonantes informações criam um ambiente onde o pensamento profundo se torna um luxo.

Pensar exige tempo.

Exige silêncio.

Exige enfrentamento.

Mas quem tem tempo, silêncio e disposição para o confronto interior quando tudo ao redor exige pressa, resultados e conformismo?

A distração é, nesse contexto, uma benção anestésica.

O conteúdo raso funciona como um analgésico simbólico.

Ele não desafia, não exige, não questiona. Apenas distrai.

E isso, para muitos, é um alívio e bálsamo.

Se a dopamina explica o vício, o vazio simbólico explica o insaciável desejo.

Desejo de fuga, de apertencimento, mas pertencimento a tudo o que não tem substância.

 

Ao longo da história as culturas sempre foram estruturadas por sistemas simbólicos sólidos.

A espiritualidade e a arte davam sentido ao sofrimento.

A (idílica, não a real) política davam ao coletivo.

A ciência e a filosofia ao desenvolvimento/esclarecimento.

Hoje, tudo isso está em desgraçada crise.

O símbolo virou cinza.

E no lugar da busca por sentido triunfa o consumo das ocas sensações.

Sigmund Bauman nos oferece a metáfora mais precisa que hoje nos define:

“Vivemos em uma modernidade líquida”.

Tudo se esvai. Nada permanece.

 

O futuro virou ameaça. O passado, vergonha. O presente, um campo de consumo.

Consumir se tornou, mais do que um ato econômico, um ato existencial.

Compramos para nos sentirmos alguém.

Para nos sentirmos vivos.

“Seguimos” para nos sentirmos incluídos.

Curtimos para ter alguma recompensa.

Neste ambiente os influencers não são apenas influentes.

Eles são ícones mitológicos de uma sociedade sem um pingo de transcendência.

A garota que exibe sua estampa estética e sexualizante.

O rapaz que mostra um corpo esculpido.

O casal que vende o amor ideal.

O empreendedor vendedor de sonhos e fumaças…

Todos oferecem, sem saber, substitutos simbólicos para aquilo que foi perdido.

Mesmo sem dizer nada profundo dizem tudo o que o sistema quer que acreditemos.

Que é possível ser feliz sem pensar, e sem relações sólidas e genuínas.

Ter valor sem profundidade.

Alcançar sucesso sem sentido.

O conteúdo que consumimos todos os dias não fica na tela. Ele entra em nós, forma hábitos, opiniões, valores. Mesmo por omissão, (de)forma caráteres.

Pessoas que consomem apenas entretenimento raso tendem a desenvolver um senso crítico atrofiado. Perdem a capacidade de discernir, de argumentar, de identificar manipulações.

E isso afeta diretamente suas decisões, como consumidores, como cidadãos, como entes espiritualizados que deixam de ser…

No consumo, o padrão se repete. Compramos não o que precisamos, mas o que nos disseram que queremos.

Livros são lidos porque viralizaram, não porque carregam ideias, valores, conhecimentos e símbolos transformadores.

A inteligência é substituída pela tendência.

O discernimento, pelo modismo.

E esse processo gera um ciclo perverso.

Menos pensamento crítico, mais manipulação, mais injustiça, mais alienação, mais consumo de superficialidade, deturpação e mentira.

O sistema se retroalimenta.

O preço a pagar, esse, é altíssimo.

Uma sociedade que não pensa é uma sociedade que não se protege, que sangra e definha.

E nesse cenário a idolatria ao superficial não é inofensiva.

Ela é funcional ao sistema.

Forma o tipo de ser humano programável e ideal: passivo, sugestionável, condicionado, distraído, reativo, desinformado, viciado em dopamina, treinado para obedecer aos algoritmos, um idiota útil e incapaz de sustentar as tortas e enviesadas ideias.

A distração não é neutra.

Vivemos em uma sociedade do espetáculo onde tudo é representação.

Não se vive, se assiste, não se participa, se consome.

O sujeito distraído é um sujeito desmobilizado.

E isso interessa não só aos algoritmos, mas ao poder.

A cultura da distração é uma estratégia sofisticada.

Enquanto brigamos por politiquices e trivialidades nas redes sociais, as estruturas permanecem intocadas.

A energia que poderia gerar ruptura é dissipada em debates irrelevantes, dialéticas controladas, escândalos fabricados e rivalidades tolas.

 

Pensar é romper com o conforto.

É suportar a angústia.

É perder certezas.

Mas é também a única chance de liberdade.

A burrice se apega ao dogma. À autoridade. Ao senso comum. Porque aí está o falso repouso.

O valor verdadeiro está na leitura que transforma.

Na arte que incomoda.

Na conversa que desafia.

No pensamento que desinstala.

Na transmissão do genuíno e transformador conhecimento.

Na espiritualidade que não se vende.

Tudo isto exige disposição para o invisível, para o oculto, para o transcendente…

O sistema não teme a superficialidade. Ele a promove.

O que ele teme é o sujeito que para. Que respira. Que pergunta.

Que dúvida. Que resiste. Esse sujeito, mesmo sozinho, sempre será uma ameaça a calar e extirpar.

Porque resgata o poder de escolher com consciência.

De dizer não.

De trazer o contraponto.

O inédito.

De criar.

Resgatar o invisível, o que se esconde (aquilo que apelidam de "oculto") não é alienar-se do mundo.

É transformá-lo a partir de dentro – a única via e alternativa.

É enxergar além das modas, dos filtros, dos rankings.

É buscar densidade no que parece simples.

Verdade no que parece obscuro.

Humanidade no que foi reduzido à servidão e animalização.

Estamos saturados de aparência.

O mundo precisa, com urgência, de essência.

Desde sempre o mundo preferiu o conforto da ignorância à dor da consciência.

A diferença é que hoje a ignorância é promovida por requintado design. Distribuída por tecnologia e celebrada como virtude.

Mas ainda temos escolha.

Seguir o que não tem valor pode parecer mais fácil. Mais leve. Mais divertido. Mas, no longo prazo, custa caro. Rouba-nos a profundidade. A clareza. A liberdade interior.

Recuperar o sentido da vida exige esforço.

Exige despertar.

E, em um mundo que laureia o raso, cultivar o profundo sempre culminará num ato de bravura e coragem.

      

                                                                                                                                                                             Eco

Fonte/Créditos: Juntando as peças com intelecto, lucidez & cognição impoluta™

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