Vivemos uma era em que a política foi sequestrada por roteiristas de quinta categoria, mas com ambição de Oscar. No palco, os personagens já são velhos conhecidos: há sempre um opressor imaginário, uma lágrima cuidadosamente milimetrada e, claro, um herói ou heroína da vez – não aquele que constrói, mas o que chora alto o bastante para ser ouvido nas redes sociais.
Hoje, a ministra Marina Silva entregou ao país mais um episódio desse folhetim em que a esquerda brasileira se especializou. Em uma reunião no Congresso, ao ser contrariada por deputados que cumpriam o dever democrático de questionar, Marina decidiu abandonar a sala sob o pretexto de “não ser submissa”. Cena feita. Script cumprido. Manchetes garantidas.
Mas a ministra não saiu derrotada, claro. Saiu vitimizada – o prêmio máximo na cartilha progressista, onde o mérito é medido pelo quanto se sofre (ou se finge sofrer) diante das câmeras. A esquerda aprendeu faz tempo: o papel de vítima rende mais do que propostas, mais do que trabalho, mais do que resultado. E assim transformam o contraditório em violência, a discordância em opressão, e a crítica em misoginia.
É curioso — e revelador — que os mesmos militantes que correm para defender a ministra contra a “violência política de gênero” entrem em mudo silêncio quando o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, decide exercitar seu conhecido linguajar de boteco. Porque quando Lula diz, em tom de bravata, que uma mulher “dá mais trabalho do que homem” ou solta uma de suas muitas “pérolas” machistas, não há coletiva de imprensa, não há editorial indignado, não há manifesto das deputadas da bancada do batom.
A régua, como sempre, é torta — mas torta para um só lado. Se um deputado conservador ousa interromper uma ministra de esquerda, temos um escândalo institucional. Se o chefe do Executivo cospe ignorância machista em cadeia nacional, temos apenas “um jeito popular de falar”.
E como se não bastasse o teatro da ministra, ainda houve tempo para a primeira-dama, Janja, aparecer na cena como quem busca holofote onde houver uma lente acesa. Fez questão de declarar solidariedade à ministra, tentando emplacar, junto à militância, mais um capítulo da narrativa das mulheres oprimidas — desde que sejam, claro, do lado certo do espectro ideológico. Porque quando se trata das mulheres reais, mães, jovens, idosas, que seguem presas injustamente, perseguidas politicamente por terem participado de manifestações no 8 de janeiro, a solidariedade some, evapora, desaparece. Nenhuma lágrima, nenhum discurso, nenhum tweet.
No fim, o que há não é empatia nem defesa de direitos. É só um uso cínico da mulher como escudo e instrumento de propaganda. O que está em jogo nunca foi justiça — é apenas o controle da narrativa.