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Domingo, 03 de Maio 2026
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A Batalha entre São Tomás de Aquino e Maquiavel — e o palco inesperado do Ceará

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A Batalha entre São Tomás de Aquino e Maquiavel — e o palco inesperado do Ceará
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A política brasileira, tão dada a atropelos, acordos improváveis e crises sucessivas, às vezes deixa entrever disputas que ultrapassam o mero jogo partidário, sobretudo após a ascensão da direita bolsonarista. O embate recente entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente sobre os rumos do PL no Ceará é um desses momentos em que o presente deixa vazar o passado. Por trás de cada gesto, declaração e recado público, não se trata apenas de uma divergência tática, mas da reencenação de uma antiga batalha filosófica: *São Tomás de Aquino contra Nicolau Maquiavel*.

Michelle Bolsonaro encarna, quase de forma espontânea, o espírito tomista. Sua recusa a alianças que contrariem o ethos moral do bolsonarismo não é apenas uma posição ideológica, mas a afirmação de que a política deve ser coerente com princípios permanentes. São Tomás de Aquino ensinava que a verdadeira amizade — e, por extensão, qualquer comunidade política legítima — só existe quando há *“idem velle, idem nolle”, isto é, *querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Essa unidade íntima de vontade, para ele, é o que sustenta qualquer ação coletiva autêntica. Michelle, ao rejeitar um acordo com Ciro Gomes, sustenta exatamente que não se pode caminhar ao lado de quem jamais compartilhou o núcleo moral do movimento. Para ela, manter a integridade é mais importante que ampliar o capital eleitoral. Num ambiente em que a política tantas vezes se confunde com encenação, sua postura traduz a convicção de que sem virtude não há vitória que valha a pena.

Do outro lado estão os filhos — Flávio, Carlos e Eduardo — orientados, ainda que não o digam, por um realismo político que remete diretamente a Maquiavel. Para eles, derrotar o PT no Ceará é o objetivo principal, e, se para isso for preciso formar alianças incômodas, que assim seja. Maquiavel, no capítulo mais célebre de O Príncipe, consagrou a fórmula segundo a qual, em política, *“os fins justificam os meios”* — expressão que sintetiza sua crença de que a moral pública deve ceder diante da necessidade. A eficácia prevalece sobre a pureza. Os filhos, sintonizados com esse espírito, parecem entender que rejeitar acordos viáveis em nome de princípios absolutos é confundir moral privada com estratégia política. Em sua lógica, é melhor vencer com concessões do que perder com coerência. O resultado, e não o método, define o êxito.

Temos, portanto, dois mundos que se tocam, mas não se misturam. A posição de Michelle afirma que é preferível a derrota honrada à vitória contraditória. A dos filhos sustenta que não existe vitória honrada na derrota. São Tomás exige fidelidade a uma ordem moral objetiva; Maquiavel exige fidelidade à conquista do poder. Ambos oferecem visões de política que raramente convivem de modo pacífico: enquanto o tomismo entende a política como extensão da vida virtuosa, o maquiavelismo a concebe como a arte de vencer numa arena de conflitos inevitáveis.

O Ceará, por ironia, converteu-se no palco contemporâneo desse conflito clássico. Quando Michelle afirma que não se devem trair princípios e que alianças incoerentes corrompem o movimento, ecoa o *“idem velle, idem nolle”, a noção de que uma comunidade política só permanece íntegra quando mantém unidade real de valores. Quando os filhos respondem defendendo acordos pragmáticos, reafirmam a máxima maquiaveliana de que *“os fins justificam os meios”**, sobretudo quando o adversário é poderoso e o jogo é estratégico.

No fundo, a disputa que se coloca ao bolsonarismo — e, de maneira ampliada, ao país — é a mesma que acompanha a política desde a Antiguidade: *o que deve orientar a ação pública? A moral ou o resultado? O bem ou o poder?* Michelle acredita que o poder sem o bem se converte em instrumento de corrupção. Os filhos creem que o bem sem poder se torna irrelevante. Essa tensão, que nenhuma sociedade resolveu por completo, apenas reaparece sob novas roupagens.

O desfecho no Ceará ainda está em aberto, embora haja sinais de movimento dos dois lados — pedidos de desculpas, recuos, reafirmações e a suspensão da aliança pelo partido. Michelle, segundo a imprensa, exige declarações e um movimento de Ciro Gomes que, na prática, contrariem tudo o que ele disse no passado, e não foi pouca coisa. Mas, enquanto esse jogo se desenrola, algo já está claro: o episódio reacendeu uma disputa intelectual de séculos, trazendo para o presente da direita brasileira a batalha entre a política das virtudes e a política da eficácia. *São Tomás de Aquino e Maquiavel, mais uma vez, foram convocados a medir forças — e o fizeram em solo cearense.*

Por fim, diante dessa "batalha filosófica", é inevitável lembrar como funciona a cabeça do eleitor brasileiro e a contradição permanente entre o desejo de mudança e a repetição das velhas práticas. O país quer resultados diferentes insistindo nos mesmos caminhos, a exigência da coerência do político e a falta de coerência na hora do voto. . Talvez a resposta venha do passado — da velha tradição pedetista que pulsa nas veias e faz parte do DNA de Ciro Ferreira Gomes, diretamente responsável por muito do que se vive hoje, principalmente com Jair Bolsonaro. Leonel Brizola, seu mentor político, dizia: *“Não importa quem vai ajudar a empurrar o caminhão, mas sim quem vai sentar na boleia.”* A direita, então, precisa decidir: quer empurrar qual caminhão? Quer sentar em qual boleia? E, sobretudo, quem segurará o volante? Perguntas incômodas, mas necessárias — especialmente para um campo político que, até aqui, tem empurrado caminhões velhos, inseguros e, em muitos casos, sequer conseguiu lugar na caçamba.

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