O síndico do prédio onde moravam a capitã da Polícia Militar de Minas Gerais Michele Leão Azevedo e o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira classificou o relacionamento do casal como uma "bomba-relógio". Michele foi levada ao Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, na noite de segunda-feira (20), pelo companheiro, já sem vida e com sinais de violência. Eduardo foi preso em flagrante por suspeita de feminicídio.
A declaração do síndico, Dirceu Oliveira, foi dada à rádio Itatiaia nesta terça-feira (21). Em entrevista, ele afirmou que o casal brigava constantemente e que muitos vizinhos já temiam um desfecho trágico para a relação, já que era possível ouvir discussões e gritos vindos do apartamento, principalmente por parte do sargento.
— Não só eu, mas grande parte dos vizinhos já esperava que era uma bomba-relógio. Que, a qualquer momento, ia acontecer um fato como ocorreu. A gente fica muito sentido com tudo porque é uma vida, uma pessoa que, com a gente, era muito agradável. A gente nunca gostaria que isso acontecesse com alguém, ainda mais justamente no nosso prédio. Ela parecia ter vergonha de qualquer tipo de conflito, de barulho, de briga. A gente percebia que ela falava bem baixinho. E ele era mais explosivo — afirmou Dirceu à rádio.
O síndico contou ainda que o casal costumava promover festas no apartamento e que as reuniões também geravam reclamações dos vizinhos por causa do barulho em horários inadequados.
Sangue no corredor
Ainda na entrevista, Dirceu afirmou ter visto marcas de sangue no corredor do andar onde fica o apartamento do casal. Segundo ele, esse foi o primeiro indício de que algo estava errado. Em seguida, o síndico acessou as imagens das câmeras de segurança do condomínio, que registraram o momento em que o sargento deixa o prédio carregando a esposa desacordada.
O vídeo registra o agente com a mulher nos braços no prédio em que os dois viviam, por volta de 21h15 desta segunda-feira. Nas imagens, Eduardo sai do elevador já com Michele sobre um dos ombros. De moletom e capuz, a mulher está desacordada e seus braços balançam conforme o marido anda. Ele abre a porta para a garagem e acelera o passo até o carro.
Passa alguns instantes procurando algo nos bolsos da bermuda e no chão do estacionamento antes de partir com o veículo. No caminho até o portão, a porta do carona se abre. Eduardo a fecha e sai do prédio.
A Polícia Civil do estado investiga as circunstâncias da morte de Michele, que tinha sinais de violência pelo corpo quando deu entrada no hospital.
Entenda o caso
Conforme o boletim de ocorrência, Michele deu entrada no hospital por volta das 21h35 já sem sinais vitais. O quadro clínico indicava assistolia, compatível com uma parada cardiorrespiratória ocorrida havia um tempo considerável.
A equipe médica constatou diversas lesões pelo corpo da capitã, entre elas traumatismo craniano, ferimentos nas pernas, hematomas, marcas lineares compatíveis com chicotadas e um corte extenso na região frontal da cabeça. A estimativa é de que a morte tenha ocorrido entre quatro e seis horas antes da chegada ao hospital.
Diante dos indícios de violência, a Polícia Militar foi acionada e conduziu o sargento à delegacia para prestar esclarecimentos. Em depoimento, Eduardo afirmou que, por volta do meio-dia, Michele caiu da escada, batendo a cabeça e sofrendo outros ferimentos.
Segundo ele, prestou os primeiros socorros, deu banho na esposa, estancou o sangramento e a colocou para descansar. O militar disse ainda que Michele não quis procurar atendimento médico porque estaria constrangida pelo consumo de drogas.
Ainda conforme seu relato, os dois dormiram durante a tarde. Ao acordar, por volta das 21h, percebeu que Michele não respondia aos estímulos e decidiu levá-la ao hospital.
Descarte de ecstasy
Enquanto aguardava atendimento no Hospital Odilon Behrens, Eduardo foi visto por um oficial descartando uma pequena caixa metálica contendo comprimidos semelhantes a ecstasy na lixeira do banheiro da unidade.
O sargento confirmou que havia jogado fora a substância. Os comprimidos foram apreendidos e serão submetidos à perícia.
Procurada, a defesa do sargento informou que é "imprescindível que se aguarde a conclusão das investigações e dos laudos periciais, evitando-se qualquer julgamento precipitado". Ainda ressaltou que o caso está em fase inicial e que "todas as circunstâncias serão devidamente esclarecidas pelas autoridades competentes".
"A defesa confia no devido processo legal, na imparcialidade das investigações e reafirma que se manifestará oportunamente nos autos, preservando o direito de defesa e o sigilo necessário ao bom andamento do procedimento", diz a nota.
Relacionamento abusivo
À polícia, a mãe de Michele afirmou que a filha vivia um relacionamento abusivo, marcado por controle psicológico, manipulação emocional, humilhações e comportamento obsessivo por parte do marido. Ela relatou ainda que o casal passava por sucessivas separações e reconciliações.
Segundo o depoimento, as duas tinham um encontro marcado para a manhã de segunda-feira, mas Michele ligou informando apenas que não poderia comparecer. Ao longo do dia, a mãe enviou diversas mensagens, sem obter resposta.
Ainda segundo o boletim de ocorrência, a mãe disse que só passou a suspeitar do uso de drogas pela filha depois do início do relacionamento com Eduardo. Ela acrescentou ter sido informada pela outra filha de que Michele considerava o marido uma pessoa narcisista, tentava encerrar a relação e que, em uma discussão anterior, ele teria chegado a empunhar uma faca.
Perícia
O caso é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais. Durante a perícia no apartamento do casal, os investigadores apreenderam um cabo de madeira quebrado encontrado no lixo do prédio, que pode ter sido utilizado para agredir a vítima. Também foram recolhidas roupas de cama que estavam lavadas e ainda molhadas dentro da máquina de lavar.
O veículo utilizado para levar Michele ao hospital foi periciado e removido. O celular do sargento e os comprimidos apreendidos na unidade de saúde também foram encaminhados para análise.
O corpo da capitã foi levado ao Instituto Médico-Legal (IML), onde será submetido a exame de necropsia.
Créditos (Imagem de capa): A capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo morreu na noite de segunda-feira (20) após ser levada para o Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, Minas Gerais — Foto: Reprodução/Redes sociaisO síndico do prédio onde moravam a capitã da Políci
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