Enquanto negocia os termos de sua colaboração premiada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e oferece um ressarcimento bilionário para o rombo das previdências estaduais e municipais, o dono do Master, Daniel Vorcaro, tem sinalizado que não pretende desembolsar nenhum centavo para duas instituições que foram arrastadas para o epicentro da crise do Banco Master: o Banco de Brasília (BRB) e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo interlocutores de Vorcaro disseram ao Valor Econômico, o banqueiro estaria disposto a pagar uma multa de R$ 40 bilhões de reais ao longo de 10 anos. Mas, à equipe da coluna, pessoas envolvidas nas tratativas disseram que o ex-banqueiro considera que a dívida do BRB já foi superada.
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Isso porque, para Vorcaro, as fraudes nas carteiras de crédito vendidas ao banco estatal de Brasília já teriam sido compensadas pelos ativos que o Master entregou quando o Banco Central, a Polícia Federal e o Ministério Público já investigavam o caso.
Esses ativos, que o Master avaliava em R$ 21 bilhões, foram negociados pelo BRB com a gestora Quadra. Segundo um fato relevante divulgado nesta semana pelo banco, foi fechado um acordo para vender a carteira recebida do Master a R$ 4 bilhões, podendo chegar a R$ 15 bilhões – num cenário extremamente otimista.
O BRB, porém, discorda do argumento de Vorcaro. Antes mesmo de o banqueiro apresentar sua proposta aos investigadores, o banco acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) e pediu ao relator do caso, ministro André Mendonça, que parte da multa a ser paga no acordo de colaboração premiada seja reservada para cobrir os prejuízos que o Master provocou no banco estatal brasiliense.
A cúpula do BRB se antecipou ao fechamento das cláusulas do acordo, o que compete à PGR e à PF, mas não estipulou um valor. “O banco é vítima disso tudo”, disse ao blog um dirigente, que frisa que o escândalo provocou não apenas uma crise de liquidez e de capital, mas também de reputação.
Conforme informou o blog, o BRB beirou a liquidez zero e estava próximo do limite para a venda de carteiras antes do anúncio do acordo com a Quadra Capital. O banco chegou bem próximo de ficar sem dinheiro para pagar seus compromissos, ou seja, beirou a insolvência, em alguns momentos críticos nas últimas semanas.
Perda de confiança
Outro ponto levantado no entorno de Vorcaro é o de que o Master também não teria nada a ressarcir ao FGC, uma vez que o fundo foi acionado para prestar assistência financeira dentro dos limites legais – já que ele foi criado justamente como um seguro para garantir a estabilidade do sistema financeiro nacional, promovendo, por exemplo, assistência de liquidez a instituições bancárias.
Entre maio e outubro de 2025, quando a situação do Master se deteriorava, o FGC prestou ao banco assistência financeira de aproximadamente R$ 4,3 bilhões, segundo informações prestadas pelo BC ao Tribunal de Contas da União (TCU). Apesar dos aportes do FGC, a crise crônica de liquidez do Master se aprofundou, com problemas crescentes no recolhimento dos depósitos compulsórios.
“O BCB [Banco Central do Brasil] concluiu que o negócio firmado com o FGC não amenizou suficientemente a crise aguda de liquidez, não endereçou a recomposição dos depósitos compulsórios e as instituições permaneciam sujeitas a risco iminente de não honrar obrigações”, concluiu uma auditoria da Unidade de Auditoria Especializada em Bancos Públicos e Reguladores Financeiros do TCU ao analisar a situação do Master e a atuação da autoridade monetária.
Para os técnicos do TCU, sem o suporte extraordinário e crescente do FGC, o Master “teria colapsado meses antes”. “Essa trajetória evidencia que o banco não estava se recuperando, mas sendo mantido por aportes de liquidez externa, enquanto sua capacidade própria de gerar caixa ou captar recursos no mercado se deteriorava progressivamente.”
De acordo com o TCU, enquanto o FGC desembolsava R$ 4,3 bilhões, o Master conseguiu captar apenas R$ 90,2 milhões por conta própria, “proporção de 1 para 47,66 que demonstra a perda de confiança do mercado na instituição”.
O acordo de colaboração premiada de Vorcaro, caso seja mesmo fechado, ainda precisa ser homologado por André Mendonça para entrar em vigor.
Até aqui, o ministro tem dado sinais de que vai fazer jogo duro com o banqueiro – e só vai aceitar validá-lo se Vorcaro realmente colaborar com a Justiça, entregando novos elementos que se somem ao farto material já colhido e extraído pelos investigadores após a quebra do sigilo telefônico, telemático e bancário do potencial delator.
Fonte/Créditos: Malu Gaspar/O Globo
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