O que pode parecer comum para a maioria das pessoas vira um desafio para quem não sabe ler. Um simples gesto de precisar visualizar uma receita de medicamentos, por exemplo, pode se tornar um empecilho. Foi pensando nisso que o médico Lucas Cardim, de 39 anos, desenvolveu uma plataforma para criar receitas com desenhos.
"Quando comecei o internato, percebi que havia uma lacuna entre a prescrição do médico e a confirmação de que o paciente tinha entendido de fato o que tinha sido dito e orientado. A receita é um instrumento de autocuidado do paciente", contou em entrevista ao Terra.
Lucas é natural de Pernambuco, atua no Sistema Único de Saúde (SUS) e foi jornalista da Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, até os 27 anos. Com o trabalho, ele percorreu muitos lugares do semiárido brasileiro e a saúde, de alguma forma, sempre surgia como tema em suas reportagens. Apesar de nunca ter pensado em seguir na carreira médica, ele decidiu mudar o rumo após as experiências que teve na região.
"Isso mexeu muito comigo. Quando eu voltei para casa, decidi mudar o rumo e cursar medicina, com a ideia de trabalhar na área rural. Minha mãe vem do sertão pernambucano e eu sempre tive um apreço muito grande pela região", diz.
De acordo com o especialista, a ideia dos desenhos já é usada por outros profissionais há decadas, principalmente por agentes de saúde, farmacêuticos, enfermeiros e médicos. Ele explica que a história do não letramento é geralmente associada a uma violência, tendo em vista que essas pessoas são privadas de educação ou jogadas no trabalho infantil muito cedo.
"São pessoas que têm inteligência, que criam famílias, que têm trabalhos, mas que, por histórias muito particulares, não tiveram acesso à educação formal, e muitas vezes há esse constrangimento em comunicar no serviço de saúde, a não compreensão da orientação", acrescenta.
Plataforma para receitas ilustradas
A experiência como jornalista e como médico inspirou Lucas a criar uma plataforma para oferecer receitas ilustradas aos pacientes. Antes, ele desenhava nas receitas para que o paciente pudesse compreender a medicação e seus respectivos horários. Hoje, o especialista já consegue imprimir essas receitas médicas com ilustrações.
Em uma conversa com seu melhor amigo, que é programador, Lucas desenvolveu o que seria necessário para gerar os desenhos enquanto ele conversa e examina o paciente. O tempo que ele usava para desenhar se converteu em mais atendimentos dignos para a população do sertão de Pernambuco.
Inicialmente, a Cuidado Para Todos contava com três ícones, sendo manhã, tarde e noite. Com a boa aceitação, o médico e o amigo programador passaram a criar mais desenhos, ícones e representações do cotidiano.
"Passamos a associar os desenhos ao uso de comprimidos e de cápsulas. Depois, fomos para os tratamentos mais complexos, como a asma. O uso equivocado da bombinha muitas vezes gera internações desnecessárias", explica.
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Receita médica ilustrada para facilitar tratamento de diabetes
Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra
Lucas afirma que o tratamento para diabetes está entre os mais procurados na região. A insulina exige uma atenção maior e, consequentemente, um cuidado especial para ensinar o paciente. A receita não é a mesma para todo mundo. Também são usados adesivos, saquinhos com comprimidos e alarmes no celular, por exemplo.
"O que nós fazemos é dar uma oportunidade para que essas pessoas consigam ter um acompanhamento médico e passar por avaliações. Quando mudou a tecnologia da seringa para a caneta, no caso da diabetes, a gente fez um vídeo explicativo disponibilizado por um QR code, para o paciente verificar no celular como fazer o uso", destaca.
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Remédios são distribuídos com ilustrações para facilitar o dia a dia dos pacientes
Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra
Gratuita para todos os profissionais de saúde
A Cuidado Para Todos está disponível para todos os profissionais de saúde de forma gratuita. Não é preciso estar vinculado ao SUS para fazer o uso dela. Por ser de fácil acesso, ela também não armazena dados dos pacientes.
"Nossa grande luta, e o nosso grande sonho, é que essa plataforma tenha a tecnologia abarcada no prontuário eletrônico do cidadão, que é uma plataforma federal do SUS que está presente em mais de 5 mil municípios", afirma.
Um desafio ainda para profissionais que precisam se deslocar para o interior é a impressora. Mas, segundo Lucas, isso também tem solução. O especialista sugere que ocorra a impressão do número máximo de recursos visuais possíveis, sem o preenchimento de doses ou dados.

Adesivos são colados nas caixas de remédios
Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra
"Nós conseguimos impressoras térmicas para visitas domiciliares, o que tem facilitado muito. Mas, quando não havia isso, andávamos com uma pastinha com as impressões, adaptando as doses. Atualmente, temos cerca de 50 profissionais usando a plataforma, inclusive em distritos indígenas. Algumas prefeituras também nos procuram para solicitar parceria", ressalta.
De acordo com Lucas, após o uso da plataforma que cria desenhos ilustrados, os pacientes apresentaram quadros clínicos melhorados, como no controle da glicemia e da pressão, por exemplo. Desta forma, com problemas recorrentes controlados, essas pessoas passaram a buscar ajuda para outras doenças.
"Uma vez que a gente consegue compensar a diabetes ou a hipertensão, o paciente passa a observar, às vezes, que o cabelo está caindo, ou que a unha está com um fungo. É um trabalho muito gratificante", finaliza.
Fonte/Créditos: Terra
Créditos (Imagem de capa): Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra
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