Décadas depois de uma sessão mediúnica rara, registrada em um áudio de 54 minutos, o nome de Chico Xavier (1910-2002) voltou ao centro de um debate que ultrapassa a fé e avança para o território da ciência. Pesquisadores de Portugal e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) analisaram minuciosamente a gravação do encontro do médium com o dirigente espírita português Isidoro Duarte Santos e chegaram a um dado que chama atenção até dos mais céticos: cerca de 88% das informações verificáveis apresentadas estavam corretas. Se, em um primeiro momento, o impacto veio dos números, agora o foco recai sobre o que pode explicá-los.
O registro reúne diferentes produções mediúnicas, incluindo uma carta atribuída a uma pessoa falecida, dois poemas atribuídos a autores portugueses e descrições verbais de personalidades, vivas ou mortas. Responsável pela maior parte deste levantamento e primeiro autor do artigo Análise da Ocorrência de Recepção Anômala de Informação Mediúnica: O Caso Chico Xavier e Isidoro Santos, publicado na revista científica Explore, Carlos Miguel Pereira explica que o acesso ao material revelou um documento incomum. Isso porque permite acompanhar, de forma contínua, o que foi dito durante a sessão, algo raro nesse tipo de registro histórico, abrindo espaço para uma análise mais rigorosa.
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“Verificamos que reunia características pouco comuns. As informações incluíam dados íntimos e detalhados relacionados a dezenas de pessoas. Além disso, o visitante português vinha de um contexto geográfico e social distante, o que tornava menos plausível o acesso prévio a parte dessas informações por vias convencionais”, afirma o pesquisador.
No áudio, Chico Xavier menciona cerca de 30 pessoas, sendo 18 já falecidas, todas ligadas a Isidoro. A partir desse material, o grupo iniciou uma investigação que se estendeu por cerca de dois anos para rastrear possíveis fontes dessas informações. Foram analisados documentos escritos, realizadas entrevistas com familiares e conduzidas buscas em jornais e revistas da época, no Brasil e em Portugal, incluindo acervos da Biblioteca Nacional. A pesquisa foi estruturada em duas etapas: primeiro, verificar a veracidade dos dados; depois, avaliar se poderiam ter sido obtidos por meios convencionais, incluindo hipóteses de fraude, deliberada ou não.
Ao final, os pesquisadores identificaram 65 itens de informação verificável, como nomes, datas, locais, relações pessoais e características físicas. “Conseguimos confirmar que 87,7% das informações eram corretas, apenas 3% incorretas e 30,8% de informações altamente improváveis de ter acesso por meios convencionais. Em certos casos, eram informações muito pessoais dos falecidos, como quando uma pessoa passava férias com a esposa, já falecida, em uma praia específica”, conta o professor Alexander Moreira-Almeida, coordenador do estudo e do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES) da Faculdade de Medicina da UFJF. Dos 65 itens verificados, somente 2 casos foram considerados erros: “A menção de uma pessoa que supostamente morava no Porto, o que não se confirmou. Outro caso envolve o nome Laura, mas também não foi confirmado”.
Para Moreira-Almeida, que também investiga outros médiuns, como Divaldo Franco, os resultados reforçam a hipótese de que Chico Xavier apresentava “habilidades excepcionais”, ainda que sem oferecer uma explicação definitiva para sua origem. Já Carlos Miguel Pereira chama atenção para o papel do estudo dentro do campo científico: mais do que validar crenças, a pesquisa organiza e testa evidências com método, ao excluir tudo o que poderia ser acessado por vias convencionais. “Não pretendemos oferecer conclusões definitivas sobre a natureza do fenômeno mediúnico, mas sim contribuir com evidência histórica documentada e analisada de forma sistemática para um debate científico ainda em aberto sobre a origem de certos tipos de informação em contextos mediúnicos”, finaliza.
Fonte/Créditos: Revista Veja
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