Um grupo de cientistas dos Estados Unidos simulou o uso de nuvens artificiais para tentar enfraquecer super El Niños antes que esses eventos provoquem impactos climáticos mais severos. O estudo, publicado na revista científica “Science Advances”, testou em computador uma técnica de geoengenharia solar chamada clareamento de nuvens marinhas. Com informações de g1.
A pesquisa partiu de um episódio real: os incêndios florestais que atingiram a Austrália no verão de 2019 para 2020, conhecidos como “Black Summer”. A fumaça lançada na atmosfera alterou o comportamento de nuvens sobre o Oceano Pacífico e teria ajudado a resfriar as águas, contribuindo para uma La Niña que durou de 2020 a 2023.
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico equatorial ficam pelo menos 0,5°C mais quentes do que o normal. O fenômeno aparece, em média, a cada dois a sete anos, costuma durar cerca de 12 meses e influencia chuvas, temperaturas e extremos climáticos em várias partes do planeta.
A La Niña funciona na direção oposta, com resfriamento das mesmas águas. Os dois fenômenos fazem parte do ENOS, sigla para El Niño-Oscilação Sul, ciclo natural que altera a circulação atmosférica e interfere em secas, enchentes, ondas de calor e safras agrícolas.

Simulação usou sal marinho para clarear nuvens baixas
A técnica analisada consiste em borrifar partículas de sal do mar na atmosfera para tornar nuvens baixas mais brancas e refletivas. Com isso, uma parcela maior da luz solar voltaria ao espaço, em vez de aquecer a superfície do oceano.
Os pesquisadores simularam o que teria acontecido se o clareamento artificial de nuvens tivesse sido aplicado antes dos El Niños de 1997-1998 e 2015-2016, dois dos mais fortes das últimas décadas. Nos modelos climáticos, a intervenção reduziu a intensidade dos eventos quando começou cedo, ainda na fase de formação, e continuou por tempo suficiente.
Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje faz pós-doutorado na Universidade de Chicago, afirmou que a proposta difere de outras ideias de geoengenharia porque não exigiria aplicação contínua por décadas. “Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente”, disse.
Os próprios autores tratam o resultado como prova de conceito, não como plano de ação. As simulações indicaram também um efeito colateral: nos cenários em que o El Niño perdia força, a La Niña seguinte tendia a chegar mais cedo e, em alguns casos, mais intensa, sinal de que intervenções em uma parte do sistema climático podem deslocar riscos para outra.
Especialistas independentes pediram cautela. Carlos García-Soto, pesquisador do Instituto Espanhol de Oceanografia, avaliou que o trabalho explora uma possibilidade física por meio de simulação, mas afirmou que modificar deliberadamente um sistema climático tão complexo quanto o El Niño exige evidência muito superior à necessária para demonstrar uma hipótese plausível.
No Brasil, o El Niño costuma aumentar a chuva no Sul, reduzir precipitações no Norte e em partes do Nordeste, tornar as chuvas mais irregulares no Sudeste e no Centro-Oeste e favorecer ondas de calor. O estudo não testou a técnica no mundo real, e os pesquisadores não relataram proposta para aplicá-la ao El Niño que previsões sazonais apontam como potencialmente forte em 2026.
Fonte/Créditos: DCM
Créditos (Imagem de capa): Foto: Michael Dantas/AFP via DW
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