Uma auditoria independente divulgada nas redes sociais lançou dúvidas sobre a neutralidade da pesquisa eleitoral Nexus/BTG Pactual que apontou vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro em cenários para a eleição presidencial de 2026.
O principal questionamento levantado pelo estudo não envolve inicialmente os números divulgados, mas sim a estrutura empresarial da companhia responsável pelo levantamento.
Segundo a auditoria realizada pelo analista Leonardo Dias, a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados pertence à FSB Holding, grupo de comunicação que mantém contratos de publicidade e comunicação institucional com órgãos do governo federal.
A análise destaca ainda que documentos relacionados ao próprio levantamento utilizariam endereços eletrônicos vinculados à FSB, reforçando, segundo o auditor, a necessidade de maior transparência sobre as relações empresariais envolvidas na realização da pesquisa.
Embora a auditoria não apresente qualquer acusação de fraude ou manipulação dos resultados, o autor sustenta que existe um potencial conflito de interesses que deveria ser considerado pelo público ao avaliar os números divulgados.
A discussão ganha relevância porque pesquisas eleitorais exercem forte influência sobre o debate político nacional. Além de medir tendências de opinião, levantamentos desse tipo ajudam a moldar narrativas, influenciam estratégias de campanha, afetam decisões do mercado financeiro e podem impactar a percepção dos eleitores sobre a força de cada candidato.
Por essa razão, argumenta Leonardo Dias, a independência real e percebida das empresas responsáveis pelas pesquisas é um elemento fundamental para a credibilidade dos resultados.
AUDITORIA NEXUS BTG: A PESQUISA "OFICIAL"
— Leonardo Dias (@leonardodias) June 16, 2026
Toda pesquisa eleitoral tem um contratante. Esta tem dois donos.
Em 15 de junho, a manchete chegou pronta: BTG/Nexus, Lula 49 x 43 sobre Flávio no 2º turno. Pesquisa paga pelo Banco BTG Pactual, R$ 164.888,89, nota fiscal 290, registro… pic.twitter.com/X0vqtDk6JG
O que mostrou a pesquisa
A pesquisa Nexus/BTG divulgada em junho de 2026 apresentou vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro tanto em cenários de primeiro quanto de segundo turno.
No segundo turno, os números divulgados foram:
* Lula: 49%
* Flávio Bolsonaro: 43%
No primeiro turno:
* Lula: 42%
* Flávio Bolsonaro: 33%
O levantamento foi contratado pelo BTG Pactual ao custo aproximado de R$ 165 mil e recebeu ampla repercussão na imprensa e entre analistas políticos.
Auditoria reconhece aspectos positivos
Apesar das críticas, a auditoria faz questão de registrar que a pesquisa apresenta qualidades metodológicas importantes.
Um dos pontos elogiados foi a ordem das perguntas.
Segundo Leonardo Dias, a intenção de voto foi medida antes da apresentação de questões relacionadas ao governo, economia e outros temas sensíveis. Essa sequência reduz o risco de que as respostas dos entrevistados sejam influenciadas por estímulos políticos apresentados anteriormente.
O auditor também destaca positivamente a quantidade de informações divulgadas pela Nexus.
Foram disponibilizadas 116 páginas de resultados, volume superior ao observado em grande parte das pesquisas eleitorais realizadas no Brasil.
A distribuição dos entrevistados por faixa de renda também foi considerada relativamente próxima dos dados oficiais produzidos pelo IBGE.
Margem de erro é um dos principais alvos da crítica
Entre os aspectos técnicos questionados, a margem de erro ocupa posição central.
A pesquisa informou margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
No entanto, segundo os cálculos apresentados na auditoria, o método de coleta utilizado pela Nexus — conhecido como Random Digit Dialing (RDD), ou discagem aleatória de telefones — costuma gerar um efeito estatístico que aumenta a incerteza dos resultados.
Com base na metodologia empregada, Leonardo Dias estima que a margem efetiva poderia variar entre 2,7 e 3,1 pontos percentuais.
Caso essa avaliação esteja correta, a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro seria menos robusta do que a percepção transmitida ao público pela divulgação original.
A liderança continuaria existindo, mas a precisão estatística da diferença seria menor.
Comparações entre pesquisas também são questionadas
Outro ponto destacado pela auditoria envolve mudanças nos candidatos apresentados aos entrevistados entre diferentes rodadas do levantamento.
Segundo a análise, nomes como Joaquim Barbosa e Aldo Rebelo foram incluídos ou retirados em momentos distintos.
Para o auditor, esse tipo de alteração dificulta comparações diretas sobre crescimento ou queda dos candidatos ao longo do tempo.
Isso ocorre porque a entrada ou saída de concorrentes altera a distribuição dos votos e pode produzir variações que não refletem necessariamente mudanças reais na preferência do eleitorado.
Pergunta sobre Trump é apontada como potencialmente enviesada
A auditoria também faz críticas à formulação de uma pergunta relacionada a um possível aumento de tarifas comerciais por parte do presidente norte-americano Donald Trump.
Segundo o relatório, os entrevistados eram levados a atribuir responsabilidade pela situação a Lula ou a Flávio Bolsonaro.
Não havia, porém, a possibilidade de indicar que a eventual medida seria uma decisão do próprio governo dos Estados Unidos.
Na avaliação do auditor, a estrutura da pergunta tende a captar alinhamentos políticos dos entrevistados em vez de medir sua opinião espontânea sobre o tema.
Composição da amostra levanta dúvidas
Outro aspecto analisado foi a composição da amostra.
Segundo Leonardo Dias, a pesquisa ouviu proporcionalmente mais jovens e menos idosos do que a composição oficial do eleitorado registrada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A auditoria também observa que a Nexus utilizou como referência a PNAD Contínua, levantamento domiciliar realizado pelo IBGE, em vez dos dados eleitorais do TSE.
Para o analista, essa escolha metodológica pode produzir diferenças relevantes nos resultados finais, especialmente em disputas eleitorais polarizadas.
O pedido por mais transparência
Apesar da série de questionamentos, a conclusão da auditoria não aponta fraude nem fabricação de números.
O foco das críticas está na transparência e na necessidade de permitir uma verificação independente mais aprofundada.
Leonardo Dias defende a divulgação integral dos microdados anonimizados, dos pesos estatísticos utilizados na ponderação da amostra e de informações detalhadas sobre os procedimentos de coleta e processamento das respostas.
Segundo ele, apenas a abertura completa desses dados permitiria que pesquisadores externos validassem integralmente os resultados apresentados.
Debate ultrapassa uma única pesquisa
A controvérsia em torno da Nexus/BTG reacende uma discussão recorrente sobre pesquisas eleitorais no Brasil: até que ponto o público possui acesso às informações necessárias para avaliar não apenas os resultados, mas também os interesses, relações institucionais e escolhas metodológicas existentes por trás dos levantamentos.
Nesse contexto, a auditoria sustenta que a questão mais importante não é apenas quem aparece na frente na corrida presidencial de 2026.
Para o analista, o verdadeiro debate está na transparência dos processos, na independência das empresas envolvidas e na capacidade de o eleitor conhecer todos os elementos que influenciam a produção de pesquisas que ajudam a moldar o cenário político nacional.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se