Circula nas redes sociais algumas publicações que alertam para evitar aplicar perfume diretamente no pescoço, sob a justificativa de que a região, por estar próxima à tireoide e ter pele mais fina e vascularizada, facilitaria a absorção de substâncias químicas capazes de interferir no equilíbrio hormonal. A mensagem vem sendo compartilhada como um alerta de saúde, levando usuários a repensar hábitos cotidianos. É #FAKE!
O conteúdo sugere que a exposição frequente a fragrâncias nessa área específica do corpo poderia afetar a produção hormonal, especialmente em pessoas mais sensíveis. Mas a alegação não encontra respaldo em evidências científicas e simplifica de forma incorreta como ocorre a absorção de substâncias pelo organismo.
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Como é o post?
A matéria viral aparece em formato de imagem com texto explicativo, recomendando que o perfume não seja aplicado no pescoço. Em uma das publicações, compartilhadas pelo médico de medicina integrativa, José Nasser, o conteúdo sugere que essa área do corpo aumentaria a absorção de compostos químicos presentes nas fragrâncias, elevando o risco de alterações hormonais.
Nos comentários, usuários demonstram preocupação e dizem ter mudado hábitos:
“Sempre tive esse receio e não passava com medo de afetar a tireoide”
“Parei agora”
“Ainda bem que acabei de aprender”
A mensagem reforça a ideia de um risco específico ligado à região do pescoço, o que não encontra respaldo científico. Procurado pelo GLOBO, o médico ainda não esclareceu as bases científicas de sua afirmação.
Por que é falso?
Não há evidência científica de que aplicar perfume no pescoço cause alterações na tireoide.
Ao GLOBO, a endocrinologista Caroline Serrano, diretora do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explicou que a afirmação não se sustenta:
— Não existe nenhuma evidência robusta de que aplicar perfume no pescoço cause alteração na função da tireoide.
A especialista explica que, embora perfumes possam conter substâncias classificadas como desreguladores endócrinos, isso não significa que seu uso leve a doenças hormonais:
— A gente sabe que perfumes têm compostos que podem ser considerados desreguladores endócrinos, como parabenos e ftalatos. Mas não existe nenhum estudo de causa e efeito mostrando que isso provoque disfunção da tireoide.
Outro ponto central é que a lógica do post está equivocada ao sugerir que o local de aplicação faria diferença:
— Independentemente de ser aplicado no pescoço, no pulso ou em outra região, a absorção é pela pele. Se essas substâncias penetrarem, elas entram na circulação e podem agir em diferentes tecidos.
Ou seja, evitar o pescoço não reduz risco, até porque esse risco não foi comprovado.
O que há de verdade?
É correto afirmar que existem substâncias com potencial de interferir no sistema endócrino em diversos produtos do dia a dia, incluindo cosméticos. No entanto, a própria ciência ainda não estabeleceu claramente como isso ocorre em humanos em condições reais de exposição.
— Os desreguladores endócrinos já foram demonstrados como capazes de interferir na função hormonal, mas principalmente em estudos in vitro ou em modelos animais. Em humanos, ainda são poucos os estudos e não existe uma relação direta de causa e efeito bem estabelecida, especialmente no caso da tireoide — afirmou Caroline.
A especialista também destaca que a exposição a esses compostos é ampla:
— A gente está exposto a desreguladores endócrinos de várias fontes: plásticos, alimentos, pesticidas, outros cosméticos. Não é algo específico do perfume.
O que realmente afeta a tireoide?
Os fatores de risco conhecidos para alterações na tireoide são outros, bem estabelecidos pela medicina. Carolina destaca
— Os principais fatores são exposição à radiação, excesso ou deficiência de iodo, doenças autoimunes e alguns medicamentos. Existem também alguns contaminantes específicos, como o perclorato, mas isso está relacionado, por exemplo, à água contaminada, não ao uso de perfume.
A publicação viral parte de um conceito real: a existência de substâncias com potencial ação hormonal, mas tira uma conclusão incorreta.
— Não existe nenhum estudo robusto na ciência que mostre que passar perfume cause disfunção da tireoide — concluiu Caroline.
Portanto, a afirmação de que aplicar perfume no pescoço faz mal à tireoide é falsa.
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