Um dos episódios mais controversos da história de Istambul voltou a chamar atenção nos últimos anos: o extermínio em massa de cães de rua ocorrido em 1910, quando cerca de 80 mil animais foram retirados das ruas e abandonados à própria sorte em uma ilha desabitada no Mar de Mármara.
A ação foi determinada pelo então prefeito da cidade, Suphi Bey, em meio a um processo de modernização que buscava alinhar Istambul aos padrões urbanos europeus da época. Os cães, que durante séculos conviveram de forma pacífica com a população local, passaram a ser vistos como um problema de saúde pública e símbolo de atraso.
Relatos históricos indicam que os animais foram levados para a ilha de Sivriada — um local sem água, vegetação ou qualquer estrutura de sobrevivência. Nenhum deles sobreviveu.
A medida gerou forte reação popular. Moradores tentaram esconder o maior número possível de cães em casas e estabelecimentos, enquanto protestos e críticas se espalharam pela cidade. O episódio também foi registrado por escritores e viajantes estrangeiros, que descreveram a revolta da população e a brutalidade das capturas.
Décadas antes, no entanto, o cenário era bem diferente. Registros do século XIX mostram que os cães faziam parte da paisagem urbana e eram cuidados coletivamente. O escritor Mark Twain chegou a relatar, em 1867, que os animais dormiam tranquilamente pelas ruas, indiferentes até mesmo à passagem do sultão.
Outros autores europeus também destacaram a relação respeitosa dos habitantes com os animais. Havia recipientes de água espalhados pelas ruas e até abrigos improvisados para proteger os cães do frio, mantidos pela própria população.
Essa convivência começou a mudar com o avanço das reformas urbanas do Império Otomano, especialmente a partir do século XIX. Em nome da higiene e da modernização, políticas de remoção de animais foram adotadas, culminando na operação de 1910 — considerada a mais radical.
O episódio deixou marcas profundas na memória coletiva da cidade. À época, muitos moradores associaram o ocorrido a um possível castigo divino, especialmente após uma sequência de crises que atingiram o Império Otomano nos anos seguintes, como as Guerras Balcânicas e a Primeira Guerra Mundial.
Quase um século depois, ativistas dos direitos dos animais ergueram um memorial na própria ilha de Sivriada em homenagem aos cães mortos. A inscrição relembra “as dezenas de milhares de animais deixados para morrer” no local.
Para representantes de organizações de proteção animal, o episódio serve como alerta até hoje. Segundo eles, práticas contemporâneas de abandono em áreas isoladas ainda ocorrem, o que reacende o debate sobre políticas públicas e o tratamento dado aos animais nas grandes cidades.
Atualmente, Sivriada também é conhecida como Hayırsızada, expressão que pode ser traduzida como “ilha de mau agouro” — um nome que reflete o peso histórico do episódio.
Créditos (Imagem de capa): Cães vadios nas ruas de Istambul. Foto: Instituto de Pesquisa de Istambul
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