Hoje em dia, toda produção moderna que revive uma franquia clássica, tipo Star Wars ou O Senhor dos Anéis, acaba entrando em guerra com os fãs, acusando-os de racismo ou sexismo só porque eles querem ver seus heróis fiéis ao que eles cresceram vendo, e não tendo sua etnia, sexo ou orientação sexual alterados para "refletir" o mundo atual.
Por isso, é emblemático que Top Gun: Maverick comece com uma mensagem de agradecimento de seu astro principal aos fãs. Tom Cruise age ao contrário da Hollywood de hoje, não só ao reconhecer a importância do público que paga pelo ingresso, mas por respeitar o amor que esse público tem pelos personagens e pelo filme original. Parece pouco, mas acredite, está a anos-luz do resto de Hollywood, tomada por roteiristas, diretores, produtores e atores que odeiam os fãs, os personagens e o conteúdo original das obras que pegam para "reimaginar" (eu diria "vandalizar").
Assim, meio que sem querer, o filme se tornou um marco cultural, uma ovelha negra (a gente ainda pode usar essa expressão?) em meio aos filmes que entopem as telas de cinema hoje, nos quais os protagonistas homens heterossexuais e brancos são cruelmente desconstruídos para logo em seguida serem sacrificados no altar da diversidade e da inclusão.
Nas mãos de 99% das equipes criativas da Hollywood moderna, Maverick provavelmente seria mostrado como um velho triste e decadente tentando desesperadamente reviver seus dias de glória antes de ser colocado em seu devido lugar por alguma personagem mulher, trans, negra, feminista, lésbica, empoderada, que no final convenceria o público e até o protagonista de que ele nunca foi um piloto tão bom, mesmo.
Mas não. Este Maverick é ainda o mesmo cara de quem a gente se lembra de 1986: convencido, competitivo e disposto a forçar a si mesmo e os outros ao redor dele até o limite de suas habilidades.
Esse não é um cara que vai mansamente ir para o canto e dar passagem para a nova geração. Ele é um homem fazendo o que ele ama e dando o melhor de si nisso.
Tom Cruise, produtor e principal responsável pela existência do filme, reprisa seu papel como Pete “Maverick” Mitchell, o cabeça quente graduado em Top Gun que fracassou como professor dois meses após o final do primeiro filme e passou os 35 anos seguintes sabotando repetidamente sua carreira com um ato de rebeldia contra as regras aéreas após o outro.
Quando seu trabalho como piloto de testes termina com velocidade recorde e um avião acidentado, Maverick recebe ordens para retornar a Top Gun e treinar um grupo de aviadores superconfiantes para uma missão de destruir uma fábrica de armas fortemente protegida.
Só tem um problema: um dos candidatos é Rooster, um piloto jovem com muito a provar e que é justamente o filho do Goose, o falecido melhor amigo de Maverick no filme original.
Não é exatamente uma história complexa, porque, assim como o original, ela não precisa ser.
Top Gun nunca foi uma trama intrigante com revelações e plot twists chocantes. Era um filme sobre colocar um bando de cabeças quentes juntos em um ambiente altamente competitivo e observar o que acontece.
O foco eram as rivalidades, os egos e personalidades de seus personagens, e a continuação não é diferente.
Tom Cruise se cerca de uma combinação de jovens talentos como Glen Powell, Miles Teller no papel de Rooster, e atores experientes que dão peso ao filme, como Ed Harris, John Hamm e, principalmente, Jennifer Connelly.
As cenas dela com Cruise parecem ao mesmo tempo com dois veteranos desfrutando tanto do prazer de duelar por meio de diálogos quanto de dar uma segunda chance ao romance entre pessoas que pensavam já estar velhas demais para viverem momentos fofos juntos.
Outro ponto marcante envolve o antagonista do filme original, Iceman, vivido por Val Kilmer.
Ele aparece para uma breve e terna participação, destacando tanto a sabedoria que vem com o envelhecimento quanto a vulnerabilidade comovente.
Além da história, outra coisa em Top Gun: Maverick é diferente dos filmes de hoje em dia: as cenas de ação. Em vez de colocar os atores em um cockpit de estúdio cercado por telas verdes e combinar as cenas com imagens aéreas reais, o diretor John Kosinski enviou seu elenco para o céu, dentro de aviões de verdade, e capturou suas reações com câmeras de qualidade IMAX. Isso criou uma verossimilhança surpreendente que nenhum filme de ação recentemente igualou.
O resultado é um filme sensacional que evoca a iconografia de seu antecessor de 1986.
Porém, a nova produção supera tecnicamente o original, com um tom nostálgico, mas nunca indulgente, enquanto Cruise ilumina a tela em uma atuação que aproveita toda sua aura de astro multimilionário.
Sim, ao não sucumbir ao vírus mental da lacração que infestou todas as produções Hollywoodianas, Top Gun: Maverick irritou uma minoria barulhenta e mal-humorada. Mas também bateu recordes de bilheteria em todo o mundo e se tornou o filme mais elogiado do ano, provando de uma vez por todas que essa minoria é, antes de tudo, minoria.
Créditos (Imagem de capa): Divulgação